quarta-feira, 10 de julho de 2019

Algumas mulheres que "não comi" e outras misérias

Tempos atrás me pediram um texto para o livro "20 ficções sobre o Amor & Ribeirão Preto". Editora Coruja do saudoso Lau.  Segue o texto na íntegra abaixo, espero que gostem. Eu me diverti muito escrevendo.





ALGUMAS MULHERES QUE “NÃO COMI”  E OUTRAS MISÉRIAS


                                                                      “Há poesia
                                                                      Na flor
                                                                      Na dor
                                                                      No beija-flor
                                                                      No elevador”
                                                                            (Oswald de Andrade)

 INTRODUÇÃO (de leve)


Como ter inspiração e  escrever um estória de amor aqui nessa cidade alcoólica e cheia de fuligem ao som desse ar condicionado que não limpo a vinte anos quando só me ocorrem estórias frustradas de desamor e tesão reprimido da minha terrível adolescência? Então  resolvi compartilhar algumas dessas misérias para economizar com o analista.

Peço desde já as devidas desculpas para os/as mais sensíveis;  é que infelizmente na época dessas estórias a classificação era  primitiva mesmo: comi , não comi. E na inexistência do computador pessoal e das planilhas do excel, era tudo anotado com caneta bic e contabilizado num caderno faber castell. É isso mesmo...sempre fui um romântico incorrigível e saudosista como dá para perceber.

Saliento que isso é uma obra de autoficção portanto:

·        os nomes e situações aqui citados(as) são quase fictícios(as) –  qualquer semelhança é mera coincidência ou quase.
·        Não se trata de uma livre autobiografia ou quase
·        Enfim é uma tremenda de uma mentira deslavada ou quase.



1) MARIELA

Nasci em Ribeirão Preto, no interior paulista, região que não se confunde com o sul de minas. Portanto a primeira mulher que não comi não é uma cabritinha ardente e fogosa chamada Mariela  que foi para a churrasqueira ainda cedo. Não....
Mariela era uma delícia da espécie humana;  morena cabelos compridos, seios começando a pipocar no resplandecer de seus 10 aninhos estudando  na 4ª. série “E”  do Colégio de freiras onde estudávamos. De uma das famílias mais tradicionais da minha cidade.
Bastava vê-la para eu ter uma ereção involuntária sem saber do que se tratava já que também tinha 10 anos e o sexo era um assunto inexistente na minha casa. E acho que sequer eu ligava para isso já que só pensava em bola, figurinhas, pipa, “bets”, bombas em latas, explosões em privadas da escola... e nas minhas ereções involuntárias quando via Mariela sem saber do que se tratava – portanto não era um problema já que segundo Lao TseQuem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão". E era uma ilusão boa, salutar nascida da inocência que posteriormente e fatalmente viria a perder.
Dentro desta minha ilusão e ignorância comecei a procurar paradigmas nas novelas de televisão e maneiras de me aproximar da minha primeira musa da infância que mal me conhecia e sequer sonhava com as minhas ereções involuntárias apesar de ser minha vizinha de rua e ter uns pais bem sacanas e liberais, o que vim a saber muitos anos depois quando comi a sua mãe. Acho que ela nunca tinha beijado ninguém na boca. Eu só beijava a minha irmã mais velha mas isso não conta já que era só treino, sem qualquer envolvimento emocional. Beijo técnico. Beijava também a minha cadela “Nina” mas isso é algo nojento que gostaria sinceramente de esquecer.
Era o ano de 1979, Figueiredo cavalgava suas potrancas e soltava frases de efeito: "Prefiro o cheiro do estrume de cavalo do que o  cheiro do povo". E eu naquele impasse romântico amoroso involuntário. O que fazer?
Após assistir a novela Cabocla e ouvir aquela música do Wando “gosto de maçã” que dizia: “Nas mãos uma rosa vermelha na boca um gosto de maçã” a brilhante idéia pipocou, de súbito em minha cabeça – como os peitinhos de Mariela – Como bom ariano impulsivo, com uma rosa na mão, andei os 100 metros que separavam a minha casa da dela e toquei  a campainha. A distância me pareceu quilômetros. A casa dela um palacete maior do que era. Parecia que tinha subido no pé de feijão e me deparado com o Castelo do Gigante. Seu pai abriu a porta.(cara de mau) – Pois não? Como diria o Wando o “coração agitava no peito... no ventre a vontade explodia” e eu disse – A Mari está? Para minha alegria ou desespero ela estava. – Vou chamar espera aí? Ela apareceu descalça com um shortinho delicioso e uma camiseta do Mickey Mouse. Podia ver aquela penugem dourada nos seus braços finos, sua boca carnuda, seus olhos de mel olhando para mim sem compreender o que eu estava fazendo lá parado na sua frente. Automaticamente lhe entreguei a rosa vermelha, mais vermelha que meu rosto tímido e sem sequer beijar seu rosto fui logo disparando – q.. q.. que..quer namorar comigo! E então por um tempo que me pareceu uma eternidade esperei a resposta sinceramente me colocando no lugar da garotinha e esperando um sonoro  NÃO. Foi quando a surpresa me presenteou. A menina reticente  disse – Não...sei..vou pensar. – Então tá! – Tá – Tchau. Te vejo na escola – e virei às costas.
Ocorre que como bom ariano impulsivo, os impulsos vem...os impulsos vão...e eu não esperava aquela situação em aberto, suspensa no ar, sem uma definição. Era bem melhor ter recebido um NÃO! ou VAI TOMAR NO CÚ! (o que de certo seria ótimo, salutar e merecido). Mas não. Ela foi sacana ao extremo e prolongou todo o ridículo da situação. E depois de uma noite mal dormida a ficha caiu. Tudo  aquilo era ridículo...muito ridículo. Ela era a menina mais popular e bonitinha  da escola e eu não passava de um garoto que imitava os rebolados do John Travolta em “Os Embalos de Sábado a Noite” para ganhar alguns prêmios simbólicos em concursos de dança e uma certa popularidade. Ela usava roupas de grife e eu tinha uma santa mãe que bordava grifes em minhas roupas. Depois disso a timidez me entorpeceu e dominou meu ser. Passei o resto da minha 4ª., 5ª. e 6as. séries me escondendo da garota, retardando a minha descida de escada nos horários de pico, sonhando em nunca ter tido a brilhante e impulsiva idéia de ir na sua mansão naquele dia. Enfim, nem preciso dizer que a resposta nunca veio  e  espero-a até hoje e que nos meus 10 aninhos  descobri de forma dura e cruel o que significa o desprezo absoluto. Como vingança e conforme já narrado acima comi a sua mãe sacana que  por coincidência 7 anos depois era da minha turma de francês na Aliança Francesa da Rua Lafaiete e adorava um garotão...e adorava trair o seu marido que certamente também adorava traí-la. Com a coroa enxuta foi tudo mais fácil! No final da aula de francês eu disse! – Vous avec couche avec moi??? E ela respondeu – oui!!!!!!ulalá!!!! sorrindo sacanamente. Fomos no seu carro  para o Motel Manhatam e eu tive a grata felicidade de comê-la por inteiro e várias vezes. Tinha uma bunda maravilhosa!!!! Na saída ela pagou a conta e me deixou a 100 metros de minha casa. Foi uma caminhada leve e agradável. Lembrei-me de Grahan GreeneA vingança é salutar ao caráter; dela brota o perdão." Também depois daquela trepada eu perdoava até mesmo Adolf Hitler; até mesmo Fernando Collor que   tempos depois confiscou minha poupança. Bem menor do que a poupança da mãe da Mariela, diga-se, em todos os sentidos;


2) JOANINHA

Joaninha era minha prima de 5º. Grau. Loirinha, olhos verdes, peituda, baixinha e invocada como Mike Tyson. Se lhe dessem oportunidade em uma briga arrancaria a orelha de seu oponente. Um Pity Bul ensandecido. Nunca vi mulher igual. Na 7ª. série no ano de 1982 pela primeira vez os meus trejeitos do John Travolta surtiram efeito e ela se apaixonou por mim. E eu por ela. Ficamos abraçadinhos na Danceteria Sunshine. Dois baixinhos de olhos claros, rostinho de criança, 13 aninhos andando de mãos dadas pelos casamentos dos parentes que olhavam e achavam graça  e em decorrência quase apanhavam da Joaninha. Lembro-me de um dia dos namorados. Com muito custo e com uma grana emprestada da minha santa mãe fui na Kopenhaguen da Rua Barão do Amazonas e comprei uma caixa média de bonbons Gianduia. E ela me deu o mesmo presente – uma caixa média de bombons Gianduia.(quase comprei a caixa pequena para economizar). Aprendi com a Joaninha também que uma homem não deve ser covarde. Os caras davam em cima dela  na minha frente e eu nada fazia. Um rapagão imbecil (maior do que Eu) um dia numa festa chegou a me perguntar se eu não “emprestava” a Joaninha para ele namorar e eu nada fiz, ou melhor, disse titubeante  que ela não era um objeto e que ela ficava com quem ela quisesse e no momento ela me queria e coisa e tal...e quando ela veio a saber da pergunta indecorosa(eu lhe contei!) foi lá e fez o que eu deveria e tinha a obrigação de fazer e não fiz. – Deu-lhe um chute no saco e deixou-o chorando e agonizando na presença de todos os seus outros amigos. Fantástica a Joaninha. Mas a minha timidez oriunda talvez do incidente “Mariela”, me levou a um namoro de  apenas quatro meses onde eu pegava a minha Caloi 10 amarela  ia até a sua casa, sentava na escada em frente e ficava batendo papos artificiais e comendo Gianduia. Nada NADA – quatro meses de namoro sem um beijo sequer. Gostaria muito de ter comido a Joaninha ou ao menos um beijo de recordação  mas a timidez a covardia e o desprezo anterior me sufocaram totalmente. E o engraçado é que os caras das gangues rivais invocavam comigo. Me achavam o máximo  e eu era o alvo de convocações diárias para brigas na saída da Sunshine que  burramente declinava. Deveria ter conhecido  Hemingway mais cedo  e incorporado a sua “macheza”. Mas não. Muito pelo contrário o Brasil com um time fantástico de Futebol, Sócrates, Zico, Falcão e outros conseguiu perder a Copa do Mundo naquele ano. E eu por conseqüência  perdi para sempre a coragem e a Joaninha. Tempos depois eu fui para São Paulo prestar vestibular e tentei encontrá-la. Sabia que  trabalhava como frentista num posto na Brigadeiro Luis Antônio e morava com um cara horroroso grosseirão que veio abrir a porta de sua kitinete enrolado numa toalha. Cheiro de maconha no ar. Perguntei se era a casa da ...Júlia. – Não maluco! – virei às costas e fui embora. Depois de um tempo fiquei sabendo que ela casou , separou, teve filhos....Um dia nos encontramos numa festa estilo “flash backna Sociedade Recreativa e de Esportes. Sem perceber que eu estava com minha esposa do lado veio e me deu um abraço forte, muito forte como nunca antes,  com muito carinho. Deveria ter lhe lascado um beijo na boca, de língua, molhado. Afinal Hemingway já fazia parte da minha vida. Mas minha urbanidade e pânico ressurgiu das catacumbas. Sem graça lhe apresentei minha esposa e educadamente, estranhamente e evasivamente  saí para ver o Show do Rod/Hanna, sob o olhar desconfiado da minha companheira. Chegando em casa  eu lhe contei toda esta história – Nem um beijo sequer, acredite!!!!. E ela não acreditou. Fazer o quê! O Brasil perdeu a Copa de 82 e eu também não acredito até hoje.


3) ECLAIR

Essa eu comi. Sei que vc deve estar pensando – o que essa garota está fazendo num conto  sobre algumas  das mulheres que NÃO comi. Sei lá! É que deu vontade de falar da Eclair;  com certeza na minha construção psicológica ou inconsciente deve ter alguma importância. Ou melhor – para justificar sua inclusão eu a comi uma única vez ou uma meia-vez  e portanto pode estar aqui já que não comi pela segunda e tenho vontade até hoje de dar a segunda. Se é que vocês me entendem.(???) Eclair era morena tinha uns traços indígenas, bocas carnudas e sensuais(as duas); Magra, muito magra, magérrima com uns peitos que pareciam pipoca de microondas. Sua bunda parecia uma tábua de passar roupa  com a textura daquela almofadinha azul e tinha um jeito mole de falar que me fascinava. Em contraste com a dureza de meu pênis quando ouvia a sua voz de arraia mortífera. Conheci a figura sui generis e gostosa  na casa do “Birigui”. Um amigo mais velho que morava na República “A transmutação das virgens”; Nome pomposo e de mal gosto(mas muito apropriado). Era comum entrarmos na sala sem bater e encontrar o Birigui batendo uma punheta ou comendo uma menina de quatro no sofá ou mesmo na piscina com uma mina fazendo boquete e quase morrendo afogada. República de rico com piscina, uísque e coquetéis diversos. Um dia lá estava a Eclair, melhor amiga da namoradinha do Birigui. O ano era 1984, minha diversão se resumia  em andar de fusca azul com meu amigo Dunha e ir de “bicão” em festas descoladas para descolar bebida gratuita. Já ia em puteiros com freqüência. E com freqüência era barrado por causa da minha carinha de criança carente e mimada.
Pois bem. Obrigados ao Agildo Ribeiro e sua múmia paralítica. Trimmmm. Saudades da Bruna Lombardi.
 Ela de cara gostou dos meus olhos verdes. Esmeraldas responsáveis por muitas trepadas(obrigado vovó!). Com sua voz molenga me disse. – Onndee voocêe dessscolooou essess olhosss verrdess? – Herança de vovó! (meu Deus como eu era babaca!) Mas por incrível que pareça ela sorriu e o papo foi tomando rumos concretos a lá Haroldo de Campos  e que acabaram concretizando uma ida ao Motel Manhattan (lembra?) Era o mais barato na época – e dentro da cidade !! que evitava a necessidade de carro. Fomos de táxi! Cruzes que horror! Chegando lá fomos para o quarto mais barato e Eclair foi desnudando sem pudores aquela tábua magérrima com seus bicos entumescidos e lábios carnudos(os dois). Eu logo fiquei pelado com o instrumento em riste. Que aliás já estava em riste na casa do Birigui, no táxi, na recepção e agora no quarto. – Ceeee teeeemmmm caaamiissinha? – Tenho ta aqui ó!. Com um lance profissional parafusou a dita cuja na boca e vestiu concomitantemente o meu instrumento enquanto fazia um delicioso boquete. Mulher de classe. Muita classe, diria até classuda e boqueteira profissional. Ahh Eclair, quanta alegria para uma garotinho carente e mimado de apenas 16 aninhos.... Eclair foi a primeira mulher que me ensinou a fazer as coisas bem feito sem pressa com profissionalismo e competência. Mas tudo que é bom dura pouco. A camisinha explodiu. Minha Hiroshima sem meu amor. Cogumelo atômico. E no exato momento lancei toda a minha carga radioativa por dentro dos lábios carnudos das regiões baixas daquela floresta oriental.
Acordei do pesadelo atômico de ressaca moral. – Vou virar papai!
Duas semanas de férias no Guarujá em crise existencial com o cú na mão. Depois de dois meses liguei pra ela. - E aí tudo bem? - Nossa quanto tempo? - Como está sua saúde? - TEM MENSTRUADO ULTIMAMENTE? – Sim claro! Bobinho. Ahhh!!!! que bobinho delicioso. Desliguei o telefone. A vida voltava ao normal. Passemos para outra, prometo que é a última.


4)    ANDRESSA DA “SUNSHINE”;

Andressinha , tatuagem e peitos de ouro. 1985. Que peitos. Nunca vi coisa igual e meu amigo Magalhães também não. Encostava nos muros nas paredes e ficava beijando e me esfregando naqueles peitões até ejacular na calça. Depois chegava em casa todo molhado, suado e dizia para a lavadeira que tinha caído  água de coco na calça. Mas eu era um duro em todos os sentidos. Não tinha grana para nada, para motel, não tinha carro e só ia na “Sunshine” porque era de graça e perto da minha casa. Ela tinha umas pintinhas sexys por todo corpo que tornavam o conjunto mais interessante ainda. Brotoejas. E nada mais acontecia; foi o meu período de esfoliação de esfregação ao som do The Cure e do Smiths. Titãs e seus “bichos escrotos”. Eu era a encarnação do bicho escroto dos Titãs. Um coelhinho branco, peludo e  enraivecido. Depois de um tempo a Andressinha percebeu a canoa furada que tinha embarcado e me deixou lá... ao lado daquela quadra de tênis, olhando para minha raquete e minhas duas bolas desolado. Começou a namorar um punk drogado vocalista de uma banda “hardcore” e caiu na vida sem para-quedas. Parou de ir na “Sunshine” e começou a freqüentar um bar “roquenrou” na Avenida Treze de Maio. Ficou louca, clínicas de tratamento e o escambau a quatro. Outro dia encontrei o Magalhães. –Onde anda a Andressinha? Perguntei. Ele também não sabia. Mas como gostaria de saber; E terminar o serviço que mal comecei. O Magalhães também. Já rodei todos os sites de relacionamento  e nada. Sequer sei seu sobrenome. Ai vai meu apelo:  Andressinha – Onde quer que você e seus peitões estejam. - Voltem para mim!

5)    CASSANDRA RIOS – A MUSA


Lembra lá acima quando falei que era a última? Pois bem eu menti aliás como venho mentindo desde a primeira linha desse conto de amor às avessas. É que não poderia deixar de fora a musa, aquela que povoou minha imaginação, meus sonhos em banheiros, bordéis baratos e quartinhos de empregadas. CASSANDRA RIOS, a virgem dos lábios de mel...... Na década de 80 me acompanhou por vários anos no colégio onde tive a oportunidade de contracenar com ela em uma peça de teatro no início da minha vida artística. O tema da peça era a evolução das escolas literárias no Brasil. Eu era José de Alencar e declamava com todo o meu romantismo o texto do livro homônimo, ela uma Iracema linda... tão linda quanto a Helena Ramos, gostosa como a Matilde Mastrangi. Insinuava-se com um biquíni minúsculo atrás de um pano iluminado, teatro de sombras, para o deleite da platéia que curtia sua silhueta  enorme e suas curvas para lá de sinuosas. Eu no entanto devido a posição no palco tinha uma visão dupla – a sombra em frente ao palco e ela linda em carne viva, a cores e em três dimensões dançando atrás do palco só para mim. Um sonho shakesperiano numa noite de verão. Uma apoteose. Ahhhhh!!!!!! Tempos depois fomos conhecer Ouro Preto em uma excursão escolar e inspirado por José da Silva Xavier o Tiradentes tentei beijá-la sem êxito ficando com meu coração esquartejado. Ela era daquelas provocadoras contumazes que pulam fora. Uma grande atriz de muito talento, capaz de encarnar uma santa e uma biscate ao mesmo tempo. Por falar em tempo... avançando nele já na Faculdade tentei várias vezes....fomos no teatro municipal ver uma peça com a Malu Mader e o Taumaturgo FerreiraDores de amores” e após o espetáculo nada novamente. Fiquei só mais uma vez com as minhas constantes dores dos amores não correspondidos da adolescência. Recentemente ela me procurou, marcou horário. Contente e muito bem intencionado a recebi no meu escritório, passei o meu melhor perfume, penteei meus parcos cabelos, desmarquei os clientes do dia. Nada feito. Só queria me vender uma rifa para ajudar crianças carentes. Que horror!!!! Comprei contrariado. Sinceramente acho que ela, como boa atriz que é, joga no time da Greta Garbo “-I want to be alone”. Desisto!  E vivas ao Grahan Greene outra vez!  (risos)


       EPÍLOGO (orgasmo)

Dentre essas e outras e mais algumas aí vai um relato quase-sincero de algumas das minhas banalidades mundanas dessa época terrível de insegurança, incertezas, calor infernal, mulheres peitudas (sem silicone) e muita punheta. Espero que tenha servido para desmistificar e  mostrar o quanto a minha adolescência foi comum e a sua também. Amém.








quinta-feira, 4 de julho de 2019

Chet Baker e um ônibus na Rodoviária às 22:15 da noite




Moro só ao lado da Rodoviária, lua cheia, um barulho ensurdecedor de um ônibus esperando a hora da partida. Uma mulher sem graça conversa com um cara de camisa amarela, uma gorda negra a lembrar uma pintura de Botero, um guarda cinza e uma família sorridente. Nenhuma musa. Meu vizinho na varanda me cumprimenta e reclama do barulho do ônibus. Ele ainda não se acostumou. Nada que sete ou oito meses não resolvam. Volto para o Chet Baker “Polk Dots And Moombeans”, “Autum Leaves”, contraste, realidade, sonho, loucura e desejo reprimido de estar num Pub em Amsterdan. A vida nos prega cada uma.... Ribeirão Preto e seus bares sertanejos sem raiz. Penso na música pobre e sem graça dos dias de hoje, todas iguais, todas igualmente comerciais. Onde estarão os gênios, os incompreendidos, os malucos  que nadam contra a maré, e nos proporcionam  momentos únicos e prazerosos provenientes da matéria liberdade. Ahhhh a brisa do mar a  música os bons ventos alísios de navegação musical. A real música, da criatividade, improviso e  genialidade. Como pode um cara destes morrer aos cinqüenta e oito anos despencando de uma janela do quarto 210 do “Hotel Prins Hendrick”? Como não fazer uma associação com Jimi Hendrix que morreu na flor da juventude no auge de 1970 asfixiado pelo próprio vômito em Nothing Hill? É....pois é... a morte não escolhe hora nem local, e está sempre a espreita nos observando. Chega para gênios e medíocres, velhos, meia idade e jovens indistintamente. De súbito um vento adentra o meu quarto no terceiro andar. Que não seja a morte, que seja uma brisa de promessas, de vida, vinda da lua cheia, da música maravilhosa de Chet Baker, “Alone Toghether” Sozinho e juntos, eu e a morte, eu e a vida. Clareza e escuridão. Que o tempo a brisa e a lua me levem para o lado certo do Yin e do Yang. E esse ônibus do barulho ensurdecedor para onde ele, o vento, faz a curva! Se ainda não fosse quinta-feira beberia uma cerveja agora.  Continuo a ler mais um Bukowski “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”. Ótimo título. Como o Chet, como o Hendrix. E termino este texto com o Velho Buk. Sempre ele, me salvando a cada dia. “Deve ser estranho viver comigo. É estranho pra mim. Boa Noite”. (Texto Luiz Tinoco Cabral)