terça-feira, 20 de agosto de 2019

Confissões de um adolescente de 50 anos




Toelho. o original - antes da fuga




 (texto que escrevi pensando em história em quadrinhos numa pegada Trash estilo R. Crumb. Só falta o quadrinista.....)



Em meados dos anos oitenta eu era um adolescente rebelde;  andava de moto CB 400 sem habilitação e sem capacete, colocava bombonas e bombinhas em latas e latrinas, fumava baganas de cigarros com batons de henna e invadia casas em construção para pular dos sobrados em  montinhos de areia.

Era um misto de criança, adolescente e adulto, enfim eu era um nada a esquerda.

Mas era bonitinho, magrinho,  loirinho de olhos verdes.....com meu cabelinho mullet(eu ainda tinha) , jaqueta vinho com o Eddie the head nas Costas e um tênis chinesinho do Paraguai escrito “KISS” com caneta esferográfica.

Ia  nas festas juninas da Rua Visconde de Inhaúma e recebia pencas  de correios elegantes. Dançava com as menininhas de cabelos cacheados que me pagavam peitinhos saltitantes. Beijava pescoços desnudos de carne fresca sob os olhares desconfiados da família brasileira reacionária. TFP era o lema da classe média onde eu circulava. Resquícios da Ditadura em decadência.

Pichava muros nas madrugadas, muitos.... Em determinado período aprendi a fazer as baratinhas do Henfil. Eram baratinhas do Henfil enfeitando toda a cidade. Muros recém pintados eram minha preferência. Depois aprendi a desenhar o Fradim nas paredes. Só para criticar a igreja, o que fazia com grande satisfação, como um Gremlin enfurecido.

“PIXO, LOGO EXISTO!”.  Um dia pichei essa porra no muro do colégio de freiras onde estudava. Assim mesmo, errado, com X.

Também pichei solenemente no maior estilo “we dont’need no education”:“NÃO PRECISAMOS DE ORIENTADOR PEDAGÓGICO”.

Mas foi mal um dia ter pichado “Wesley Wiado”, no portão da casa do próprio. Seu pai queria matar o responsável por tamanho despautério.  Me escondi covardemente e me arrependo já que não tinha nada contra o Wesley nem Wiados, mas era moda criticar ou inventar a preferência sexual alheia. Coisa de moleque rebelde mal orientado no seio da família brasileira, classe média, reacionária TFP FDP. Hoje Wesley é casado, nunca foi gay, tem filhos e é um puta cara legal. Saravá my friend.

Nunca fui homofóbico ....talvez um anarquista.... ou um tremendo imbecil. Você escolhe. Gira a roleta do Silvio Santos.

Gostava ainda de fazer pipas coloridas e vendê-las pra ganhar uns trocos. Criava peixes ornamentais numa banheira velha para vender os cardumes e sustentar meus vícios em playboys, status e  Ele e Ela. Lebistes e morenas peitudas eram minha especialidade. Saudades da Mara Maravilha.

Vendia de tudo um pouco, jornal velho, garrafas, gibis velhos que herdei da minha prima Dulcinha.....A mesada era rala e mal dava para comprar a Playboy ou a Status do mês, o que  fazia religiosamente, sempre na banca da praça Camões que vendia revistas de mulher pelada para menores de 18 anos. Guardo minha coleção até hoje com imenso prazer.

Tarado? Pervertido? Doente? Foda-se. Gira a roleta novamente.

Tive porquinhos-da-índia, hamsters, galinhas e coelhos, além de duas cachorras e um gato. Esse coelho chamado Toelho um dia fugiu da gaiola e comeu todas as plantas da minha mãe. Ela saiu pela casa na Rua Visconde de Abaeté  com uma espingarda calibre 12 atrás dele com desejos assassinos. Toelho foi salvo pelas súplicas de minha irmã mais velha, bióloga e hippie formada na “Filô”. Gracias maninha. Ela detesta que eu a chame de hippie. (risos). Coisas do amor fraternal.

Tive também um boneco do fofão. Confesso. Mas isso é algo que gostaria de esquecer.

Subia em árvores, telhados em busca de vizinhas desnudas, fazia de tudo por uma ombreira ao cair na tarde,  e quebrava telhas e os pais dessas mesmas vizinhas, por conseguinte, “me adoravam” e viravam a cara para mim na rua. Tipo: lá vem aquele moleque sem educação. Ficava ressabiado esperando alguém gritar: “– Chamem os caça-fantasmas para eliminarem o homem de marshmallow"  .

Matei vários passarinhos com minha espingardinha de chumbo. Confesso. Um dia matei uma pomba e ela caiu estatelada bem em frente a minha mãe que costurava na sala do quarto de brinquedos, próxima à janela. Perdi minha espingardinha para sempre. Hoje sou a favor do desarmamento e ambientalista. Alguma coisa eu aprendi a duras penas nesse período. Muitas outras eu desaprendi...graças ao meu Santo Agostinho.

Ia no Pingüim da General Osório beber chope e o garçom nem perguntava a idade e ia colocando o maravilhoso liquido na mesa. Freqüento o local até hoje. Recomendo sem pestanejar.

Comia empregadas domésticas, ia em puteiros e hotéis baratos da Avenida Francisco Junqueira, gritando um belo foda-se para aids, gonorréia, sífilis etc. Mas na dúvida e pelo “medão” que imperava no ar, usava camisinha. Era um tal de não estou nem aí, estando bem aí. Entendeu? Se não entendeu não viveu nos anos oitenta. (risos). Medão du caralho!

Vivia com elas(domésticas) ouvindo rádio AM. Gostava da Gretchen, Fafá de Belém, Sidney Magal  e do Cumpadre Canarinho. Depois ia para o porão da casa do Silvio Kimura tocar guitarra e ouvir, Metálica, Iron Maiden e Accept. “Balls to the Wall man” 

Na TV era  a Matilde Mastrangi e Adele Fátima no “Sala Especial” da Rede Record. Madrugadas e madrugadas perdidas em busca de singelos peitinhos. Ingenuidade doentia.

No carnaval tinha confete, serpentina e lança-perfume nos suntuosos salões da Recra; jogava água com minha bisnaguinha e ovos nos carros que passavam pelas ruas. E nada acontecia, pois era Carnaval, tudo era permitido e as pessoas entravam no climão de paz, amor, romance e aventura da série  Armação Ilimitada.


Tocava musicas do Lulu no violão no Bar Ladeira; Um show do Paralamas na Cava do Bosque. Dançava agarradinho nas festinhas do Laguna e na vitrola tocava “Still Loving You” dos Scorpions.

Um dia eu e mais uma trupe de bêbados resolvemos fazer uma serenata para uma amiga, filha de um conhecido e saudoso médico da cidade. Pulamos o muro de sua mansão e posicionados embaixo de seu quarto  mandamos ver “Te amo Espanhola....Te amo Espanhola....” Seu pai apareceu na janela e disparou: “- Boa noite rapaziada. Minha filha está no Guarujá. Mas a música é boa, se quiserem, voltem na semana que vem!!”.

As vésperas da minha crisma(obrigatória) na Capela dos Estigmatinos, confessei ao padre que fugia da escola pulando a janela da capela. O padre riu e disse que eu era o trigésimo crismando que estava confessando a mesma coisa.

No intervalo, na cantina, dei muita porrada e levei também. Pratiquei bulling e fui “bullingnado” de todas as formas e todos os jeitos e tinha que me virar sem ajuda e sem frescura. Acho que essa porra toda me fez um bem danado! Agradeço a cada filha-da-puta que me esmurrou e me xingou. De coração, sem nenhuma demagogia.

Adorava uma guerra de mangas e passar trotes pelo telefone com meu amigo Marquinhos. Hoje ele é empresário e tem um bar na cidade que tem mesas e cadeiras em cinco esquinas.

No porão do colégio de freiras tinha uns quadros com figuras diabólicas. Ia lá com constância só para passar medo. E morria de medo. Eu confesso.

 Com a famosa brincadeira do copo, invoquei espíritos na sala do  centro cívico da escola(eu era vice-presidente) e o espírito era de um parente de uma amiga  não queria ir embora. Atualmente no lugar da velha escola Santa Úrsula na Rua São José tem  um Shopping-Center. Cinco pessoas suicidaram-se  no local desde então. Acredito que os quadros foram enterrados por ali mesmo. E que o tal espírito continua  lá, já que “não demos baixa” na “cerimônia macabra”.

Era um péssimo aluno e às vésperas de prova utilizava o Método Silva de Controle Mental “Main Control” para relaxar com os colegas em grupo de estudo e conseguir algum milagre em sala de aula, no dia seguinte. Por incrível que pareça dava certo. Passava de ano sem maiores dificuldades. Obrigado Sofia, minha colega portuguesa com certeza.

Nos intermináveis ensaios bolinava minhas coleguinhas na coxia do teatro. Tocava muita, mas muita bronha. Enquanto isso furtava acarás-bandeiras e samambaias d’água  nos aquários das freiras. Eu confesso.

Nos dias de deprê ao entardecer, o que era raro, ia a pé, assistir filmes da arte no Cine Clube Cauim na Rua Lafaiete. Qualquer filme, ia sem saber qual estava em cartaz. Sempre tinha um filme bom. Foi lá que estupefato assisti “Down by Law” de Jim Jarmusch com Tom Waits e “Juventude transviada” de Nicholas Ray, com James Dean dentre outras obras-primas que me tornaram um adolescente rebelde eterno. Tudo culpa do Kaxassa.

Quando meu pai saia a noite para ir em festas, casamentos ou congressos, roubava o seu carro VW TL para dar um role pela cidade com a vizinha Nanda. Hoje ela é advogada e assinou o meu divórcio. Antes de sair tomava um uísque Tiller’s que me corroia todo por dentro. E o fígado jovem agüentava. Lei seca? Coisa de americano do século passado.

Ia em festas de bicão e bebia uísque na faixa em casamentos de desconhecidos e ainda cumprimentava os noivos . Quando tinha grana(o que era raro) ia no S/A tomar vinho dando pinta de bacana. Muito Keep Cooler na Boite Sunshine. Depois ia tomar uma canja de galinha na Cantina Dei Fiori e confraternizar com os bêbados e prostitutas do local. Uma vez um amigo dormiu com a cara enfiada no prato de canja. Não tenho foto. Aliás foto era raridade nessa época.

Pois é....e por aí vai, e por aí foi; poderia ficar horas aqui relatando todas as mazelas, aventuras e desventuras  de um período que  não volta mais, sem chance, nem mesmo se tocar o vinil da Xuxa de trás pra frente.

E o que era bom ou mal terminou candidamente  com pulseirinhas verdes fosforescentes  num Show  do A-ha  no Parque Antártica. “Take on me”. E logo eu que sou corintiano ROXO.

E pra enterrar de vez os anos 80  o malfadado confisco da poupança da porra do  Governo Collor. Mais aí já é a década seguinte e a estória é bem outra....

Vai aí uma pequena sinopse:  Farras nas repúblicas da faculdade, viagens de ônibus de trinta horas  para Arraial D’Ajuda. Muita maconha no luau da praia do Parracho,  nudismo nas areias de Trancoso e praticando tai-chi-chuan pelado com a Márcia de Brasília, uma morena gostosa e alto astral que conheci na pousada, perto da  balsa, em Porto Seguro. Saudades do Miele e seu programa Cocktail!

Ahhhh Bahia de todos os santos. Tem também várias estórias de  Trindade, Arembepe e Machu Pichu. Se alguém pagar a cerveja ali no Bar Brasília eu conto.

E por incrível que pareça estou aqui, ao vivo, digo,  VIVO e a cores, careca e barrigudo, moto e capacete,  cinqüenta anos e escrevendo essas merdas. Bons tempos que não voltam mais, graças ao meu Santo Agostinho.

 Acho que se fosse adolescente hoje estaria passando umas férias  na  Fundação Casa.

E gira a roleta.


Fim


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Segredos de Alcova



Estou grávida, disse a mulher ao seu namorado gay.
O impacto o arremeteu e ele  passou a vociferar ferozmente
- Mas como Verônica...???.....nós nunca....amor por si só não é capaz de gerar um filho, geração espontânea? Faça-me o favor, você sabe, como isso pode acontecer? (silêncio)
- Dois anos, dois anos e sempre, bem, você sabe, sempre na borracha, pintos de borracha, brinquedinhos, carícias, linguinha pra te satisfazer plenamente. Minha pica nem sobe contigo, você sabe, você sabe.
- Apesar de tudo nos amamos, muuuitooo, curtimos a vida a dois, só eu e ti, viagens para Paquetá, Mongaguá
, ulalá...até pra Jaguariúna nós fomos?? como pode acontecer isso? ou melhor dizendo. QUEM É O PAI PORRA!?
- Fernando
- Porra, mas o Fernando também é gay, o negócio dele sempre foi homem, como isso pode acontecer! O lance dele sempre foi EU caaaraaaalho!
E nesse instante a mulher impávida e estupefata soltou um sonoro:
- COMO????
Após  dois longos minutos de silêncio, sem graça, Pablo respondeu bem baixinho:
- Você sabe, você sabe.....E saiu pelas ruas apressadamente, cabisbaixo em busca de um bar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, mais uma leitura




O que dizer ainda de um livro que já vendeu mais de 50.000.000 de exemplares? Que é considerada uma das mais importantes obras da literatura Hispânica, perdendo só para Dom Quixote de La Mancha? Pois é, mas como sou teimoso vou dar aqui os meus pitacos. Adorei reler o livro. Quando adolescente não tinha a maturidade e a paciência para perceber os detalhes da obra prima, de sua estrutura e seu realismo mágico, as constantes quebras de ritmo na narrativa que circula entre o real e o imaginário, o banal e o fantástico. O escritor cria um mundo imaginário totalmente inverossímil, porém deixando o leitor envolver-se em sua trama como se possível fosse. A saga do povoado de Macondo e a família Buendia-Iguarán e suas várias e sucessivas gerações, todas com acontecimentos trágicos, relacionamentos incestuosos, tragédias naturais, dilúvios, secas, guerras, é incrível como tudo acontece e pode acontecer no povoado de Macondo. Os vai e vens constantes entre períodos de bonança e tragédia. As diferentes personalidades dos Josés Arcadios e dos Aurelianos, pólos opostos em todas as gerações, a a constante insistência em batizar os novos filhos com os mesmos nomes dos anteriores, o que inclusive exige uma atenção redobrada para o leitor.
Bacana também que Macondo se coloca como um mundo imaginário possível e rebelde às margens da igreja, do exército, do governo, rebeldia personalizada nas campanhas liberais perpetuadas por Aureliano. Como se Macondo fosse um lugar único no mundo onde a influência externa não atinge o cerne da tradição interna. Onde a família Buendia-Iguarán não perde a voz e o poder, por mais trágicos que sejam os acontecimentos. O livro foi publicado pela primeira vez em 1967 onde a guerra contra estados totalitários estava muito em voga, e faz um crítica contumaz a esses estados ditatoriais que se impõem à força. E não é só, tem passagens belíssimas, com construções de ambientes surreais, com a casa da família passando por todas as intempéries, pinturas, invasões de musgo, águas, poeira, animais peçonhentos de várias espécies, o que certamente dará um belo filme, se bem trabalhado o roteiro e a fotografia. ( A Netflix comprou os direitos recentemente, algo que não foi permitido pelo escritor em vida). Muito interessante também a personagem Úrsula, que nunca morre e está presente durante todo livro até o malfadado último nascimento onde a maldição do último filho espúrio e com rabo de animal é confirmada. Durante todo o livro é mantido também um suspense sobre os pergaminhos de um cigano de nome Melquíades, que como um Nostradamus previa a decadência da família e do povoado, o que também é consumado no final do livro.
Livro rico em detalhes, em imaginação, humor, porque não e um toque de genialidade que em determinados momentos me fez lembrar um pouco de Jorge Amado e seu universo próprio e inigualável. Aliás acho que os dois eram amigos. Ou melhor eram mesmo. Acabo de ver uma foto dos dois conversando sobre medo de avião. Bons tempos de internet onde tudo é posto à prova de forma imediata. Gracias.
Pois bem recomendo mais esse sem pestanejar. Livro que ganhei da minha saudosa avó em 1993(vide dedicatória na foto acima) e que li duas vezes com imenso prazer. Parte da história já virou até música do Radiohead(Banana Co), e o nome da  banda “Francisco El Hombre” é inspirada num sanfoneiro errante Colombiano muito citado durante várias passagens do livro. Eu geralmente grifo várias linhas para depois escrever aqui, mas agora não estou conseguindo encontrar nenhuma (risos). Pelo menos tenho a oportunidade de rever as incríveis e belas gravuras de Carybé, baiano, também amigo de Jorge e do Gabriel.(27ª. Edição da Editora Record). Pra dizer que não tem citação lá vai uma que encontrei no site frasesfamosas.com.br “Para mim é suficiente ter a certeza que tu e eu existimos neste momento.” Vai lá, mais uma só, prometo: “Foram dois namorados felizes na multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousante e profundo que a felicidade arrebatada e momentânea das suas noites secretas.”
Livro portanto para ler, reler, sonhar, viajar e acredito que daqui a 100 anos teremos alguém falando dele em algum lugar, como agora, mais uma vez, mais uma leitura, mais um arrebatamento sem conotação cristã. Apenas um êxtase que só a alta literatura é capaz de proporcionar.

Texto original : Luiz Tinoco Cabral