O que dizer ainda de um livro que já vendeu mais de
50.000.000 de exemplares? Que é considerada uma das mais importantes obras da
literatura Hispânica, perdendo só para Dom Quixote de La Mancha? Pois é, mas
como sou teimoso vou dar aqui os meus pitacos. Adorei reler o livro. Quando
adolescente não tinha a maturidade e a paciência para perceber os detalhes da
obra prima, de sua estrutura e seu realismo mágico, as constantes quebras de
ritmo na narrativa que circula entre o real e o imaginário, o banal e o
fantástico. O escritor cria um mundo imaginário totalmente inverossímil, porém
deixando o leitor envolver-se em sua trama como se possível fosse. A saga do
povoado de Macondo e a família Buendia-Iguarán e suas várias e sucessivas
gerações, todas com acontecimentos trágicos, relacionamentos incestuosos,
tragédias naturais, dilúvios, secas, guerras, é incrível como tudo acontece e
pode acontecer no povoado de Macondo. Os vai e vens constantes entre períodos
de bonança e tragédia. As diferentes personalidades dos Josés Arcadios e dos
Aurelianos, pólos opostos em todas as gerações, a a constante insistência em
batizar os novos filhos com os mesmos nomes dos anteriores, o que inclusive
exige uma atenção redobrada para o leitor.
Bacana também que Macondo se coloca como um mundo imaginário
possível e rebelde às margens da igreja, do exército, do governo, rebeldia
personalizada nas campanhas liberais perpetuadas por Aureliano. Como se Macondo
fosse um lugar único no mundo onde a influência externa não atinge o cerne da
tradição interna. Onde a família Buendia-Iguarán não perde a voz e o poder,
por mais trágicos que sejam os acontecimentos. O livro foi publicado pela
primeira vez em 1967 onde a guerra contra estados totalitários estava muito em
voga, e faz um crítica contumaz a esses estados ditatoriais que se impõem à
força. E não é só, tem passagens belíssimas, com construções de ambientes
surreais, com a casa da família passando por todas as intempéries, pinturas,
invasões de musgo, águas, poeira, animais peçonhentos de várias espécies, o que
certamente dará um belo filme, se bem trabalhado o roteiro e a fotografia. ( A
Netflix comprou os direitos recentemente, algo que não foi permitido pelo
escritor em vida). Muito interessante também a personagem Úrsula, que nunca
morre e está presente durante todo livro até o malfadado último nascimento onde
a maldição do último filho espúrio e com rabo de animal é confirmada. Durante
todo o livro é mantido também um suspense sobre os pergaminhos de um cigano de
nome Melquíades, que como um Nostradamus previa a decadência da família e do
povoado, o que também é consumado no final do livro.
Livro rico em detalhes, em imaginação, humor, porque não e
um toque de genialidade que em determinados momentos me fez lembrar um pouco de
Jorge Amado e seu universo próprio e inigualável. Aliás acho que os dois eram
amigos. Ou melhor eram mesmo. Acabo de ver uma foto dos dois conversando sobre
medo de avião. Bons tempos de internet onde tudo é posto à prova de forma
imediata. Gracias.
Pois bem recomendo mais esse sem pestanejar. Livro que
ganhei da minha saudosa avó em 1993(vide dedicatória na foto acima) e que li
duas vezes com imenso prazer. Parte da história já virou até música do Radiohead(Banana
Co), e o nome da banda “Francisco El
Hombre” é inspirada num sanfoneiro errante Colombiano muito citado durante
várias passagens do livro. Eu geralmente grifo várias linhas para depois
escrever aqui, mas agora não estou conseguindo encontrar nenhuma (risos). Pelo
menos tenho a oportunidade de rever as incríveis e belas gravuras de Carybé,
baiano, também amigo de Jorge e do Gabriel.(27ª. Edição da Editora Record). Pra
dizer que não tem citação lá vai uma que encontrei no site frasesfamosas.com.br
“Para mim é suficiente ter a certeza que
tu e eu existimos neste momento.” Vai lá, mais uma só, prometo: “Foram dois
namorados felizes na multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser
um sentimento mais repousante e profundo que a felicidade arrebatada e
momentânea das suas noites secretas.”
Livro portanto
para ler, reler, sonhar, viajar e acredito que daqui a 100 anos teremos alguém
falando dele em algum lugar, como agora, mais uma vez, mais uma leitura, mais
um arrebatamento sem conotação cristã. Apenas um êxtase que só a alta
literatura é capaz de proporcionar.
Texto original : Luiz Tinoco Cabral



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