quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, mais uma leitura




O que dizer ainda de um livro que já vendeu mais de 50.000.000 de exemplares? Que é considerada uma das mais importantes obras da literatura Hispânica, perdendo só para Dom Quixote de La Mancha? Pois é, mas como sou teimoso vou dar aqui os meus pitacos. Adorei reler o livro. Quando adolescente não tinha a maturidade e a paciência para perceber os detalhes da obra prima, de sua estrutura e seu realismo mágico, as constantes quebras de ritmo na narrativa que circula entre o real e o imaginário, o banal e o fantástico. O escritor cria um mundo imaginário totalmente inverossímil, porém deixando o leitor envolver-se em sua trama como se possível fosse. A saga do povoado de Macondo e a família Buendia-Iguarán e suas várias e sucessivas gerações, todas com acontecimentos trágicos, relacionamentos incestuosos, tragédias naturais, dilúvios, secas, guerras, é incrível como tudo acontece e pode acontecer no povoado de Macondo. Os vai e vens constantes entre períodos de bonança e tragédia. As diferentes personalidades dos Josés Arcadios e dos Aurelianos, pólos opostos em todas as gerações, a a constante insistência em batizar os novos filhos com os mesmos nomes dos anteriores, o que inclusive exige uma atenção redobrada para o leitor.
Bacana também que Macondo se coloca como um mundo imaginário possível e rebelde às margens da igreja, do exército, do governo, rebeldia personalizada nas campanhas liberais perpetuadas por Aureliano. Como se Macondo fosse um lugar único no mundo onde a influência externa não atinge o cerne da tradição interna. Onde a família Buendia-Iguarán não perde a voz e o poder, por mais trágicos que sejam os acontecimentos. O livro foi publicado pela primeira vez em 1967 onde a guerra contra estados totalitários estava muito em voga, e faz um crítica contumaz a esses estados ditatoriais que se impõem à força. E não é só, tem passagens belíssimas, com construções de ambientes surreais, com a casa da família passando por todas as intempéries, pinturas, invasões de musgo, águas, poeira, animais peçonhentos de várias espécies, o que certamente dará um belo filme, se bem trabalhado o roteiro e a fotografia. ( A Netflix comprou os direitos recentemente, algo que não foi permitido pelo escritor em vida). Muito interessante também a personagem Úrsula, que nunca morre e está presente durante todo livro até o malfadado último nascimento onde a maldição do último filho espúrio e com rabo de animal é confirmada. Durante todo o livro é mantido também um suspense sobre os pergaminhos de um cigano de nome Melquíades, que como um Nostradamus previa a decadência da família e do povoado, o que também é consumado no final do livro.
Livro rico em detalhes, em imaginação, humor, porque não e um toque de genialidade que em determinados momentos me fez lembrar um pouco de Jorge Amado e seu universo próprio e inigualável. Aliás acho que os dois eram amigos. Ou melhor eram mesmo. Acabo de ver uma foto dos dois conversando sobre medo de avião. Bons tempos de internet onde tudo é posto à prova de forma imediata. Gracias.
Pois bem recomendo mais esse sem pestanejar. Livro que ganhei da minha saudosa avó em 1993(vide dedicatória na foto acima) e que li duas vezes com imenso prazer. Parte da história já virou até música do Radiohead(Banana Co), e o nome da  banda “Francisco El Hombre” é inspirada num sanfoneiro errante Colombiano muito citado durante várias passagens do livro. Eu geralmente grifo várias linhas para depois escrever aqui, mas agora não estou conseguindo encontrar nenhuma (risos). Pelo menos tenho a oportunidade de rever as incríveis e belas gravuras de Carybé, baiano, também amigo de Jorge e do Gabriel.(27ª. Edição da Editora Record). Pra dizer que não tem citação lá vai uma que encontrei no site frasesfamosas.com.br “Para mim é suficiente ter a certeza que tu e eu existimos neste momento.” Vai lá, mais uma só, prometo: “Foram dois namorados felizes na multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousante e profundo que a felicidade arrebatada e momentânea das suas noites secretas.”
Livro portanto para ler, reler, sonhar, viajar e acredito que daqui a 100 anos teremos alguém falando dele em algum lugar, como agora, mais uma vez, mais uma leitura, mais um arrebatamento sem conotação cristã. Apenas um êxtase que só a alta literatura é capaz de proporcionar.

Texto original : Luiz Tinoco Cabral

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