quinta-feira, 18 de junho de 2026

NEM TENTE

 


 

        Sábado, 19 de maio de 2012,  lá estava eu na estrada da laranja a caminho da cidade dos Dinossauros.

        Atrasado, Feira do Livro,  palestra em andamento, na platéia seis almas penadas, um saci e uma mula sem cabeça.  

        O escritor me olha  e dispara  “- Estava esperando por você!”

        Surpreso, mezzo mussarela, mezzo calabresa, me desculpo pelo atraso. Ele esclarece que não tem problema:

        - Conheço todos os leitores amigos do Orkut, não são muitos. – e dá uma risada .

        A palestra segue com um bate papo informal entre eu e ele. Era o único que conhecia a sua obra com afinco.

        Fim da palestra. Fui pedir uma dedicatória no livro “Charque” e  fazer a tradicional selfie. A galera da organização da Feira nos chama para um café. M.M. diz que prefere um bar.

        Depois de muitas cervejas, ele me fala:

        - Só estou aqui porque o cachê é bom,  não costumo receber esses convites,  já briguei com todo o cercadinho do mundo literário, queria mesmo era estar com uma mulher que sai ontem, não consigo esquecê-la. Ela nua de quatro, com o rosto virado para trás e um olhar libidinoso que nunca vi igual. Estou obcecado . Vou  escrever um conto ou um romance sobre ela. - E você o que faz da vida?

        - Sou advogado, atuo na área trabalhista, mulher, filho, quanto a escrever tenho pretensões, escrevo alguns contos, crônicas, tenho um blog de literatura, mas nunca publiquei.

        - Esquece, desista, só escrevo pois não sei fazer mais nada, admiro quem tem um ofício prático. Vai advogar, curtir a vida, sua mulher, seu filho, tomar cerveja, fazer churrasco, apreciar um espeto corrido, sol, churros, basta um verniz para ser feliz.

        Lembrei-me da conhecida frase do próprio M.M. :“ser escritor é uma profissão para quem gosta de brigar consigo mesmo”

        Bêbados terminamos a noite, num bordel, nos arredores de Jaboticabal.


        

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Pedro Juan Gutiérrez - livro - Fabián e o Caos

 



Depois de muito tempo volto a ler uma obra do Pedro Juan Gutierrez, autor cubano que gosto muito.

  Nos idos de 2000 li várias obras dele dentre elas “O Rei de Havana”, “Trilogia Suja de Cuba” , “Nosso GG em Havana” “O ninho da Serpente” e “Animal Tropical”.

  Após mais ou menos 15 anos saiu aqui no Brasil esse novo romance dele  que só estou lendo agora com defasagem de alguns anos. Confesso que me surpreendeu como sempre. A potência narrativa da escrita realista e crua do Pedro Juan, agora com 75 anos de idade continua firme como nunca. Deve ter escrito esse livro na faixa dos 65 anos.

  Temos a historia de Fabián mas ao mesmo tempo a história do próprio narrador Pedro Juan que se entrelaçam numa crítica aguçada, não ao imperialismo americano ou mesmo ao sistema comunista de Cuba, mas contra toda forma de opressão que o poder político impõe às pessoas. O escritor ao que tudo indica é um anarquista.  São pessoas cambaleantes, talentosas que tem os seus talentos influenciados e ofuscados pelos interesses políticos, pelo preconceito sob a falsa premissa de buscar um bem maior e coletivo. É a  tirania que esconde muita coisa e que destrói sonhos e vidas. Nesse cenário nossos dois personagens fazem o que podem para dar um sentido e buscar um alento em nossa breve passagem pelo mundo. Bem atual hein?

  Livro muito triste com um final de arrepiar, ainda mais quando acabei de ler o livro meia noite e meia e o silêncio imperava na minha sala vazia e sem ninguém pra conversar. Quase liguei para o CVV.

  Segue um trechinho do livro só para ilustrar; (quando o protagonista Pedro Juan relata um perigoso período de um ano de tratamento com um psicólogo/sacerdote católico/freudiano) : 

“Quando eu descia até essas zonas infernais, era muito difícil voltar a superfície e a luz. Ficava perdido e não encontrava o caminho de volta. Cada vez mais para baixo. Uma descida ao inferno. Águas negras, medo e falta de oxigênio. Saia apavorado e tremendo. E quase asfixiado, porque nesses lugares a falta de ar me sufocava. Passava alguns dias me sentindo muito mal. O remédio foi pior que a doença. Aquilo não levava a lugar nenhum. Quer dizer, levava sim, a um lugar certo; se continuasse, sem dúvida ia acabar num manicômio com a máquina de eletrochoque fritando o meu cérebro.

  Resta saber quando  vão lançar os novos livros dele aqui no Brasil com tradução. Já estou esperando. Será que arrisco ler um livro no idioma espanhol??? Buenas ainda falta o livro de contos já lançado aqui "O insaciável Homem-aranha". Vamos com calma.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Expedição Fawcett Coronel Percy Fawcett - uma leitura leve e instigante

 



  Trata-se do último livro de aventuras reais que li, o primeiro a ser finalizado esse ano, com imenso prazer, já que o personagem principal é muito peculiar e instigante sendo inspiração para criação do famoso Indiana Jones.

  Pois vamos acompanhando o Coronel Percy Fawcett pelas entranhas da América do Sul, lugares inimagináveis de templos, ídolos, natureza, animais selvagens, indígenas, insetos, muitos insetos, num tempo em que não existiam os repelentes, entre 1906 e 1924.

Nos deparamos com, relatos riquíssimos de um Brasil improvável, distante, desconhecido, atrasado e de características muito específicas, numa colonização caótica e sem quaisquer regras.

De uma expedição(precedida de várias outras também muito interessantes) em busca da cidade perdida de Z até o malfadado final do livro com o desaparecimento do protagonista e seu filho e as posteriores e frustradas expedições para encontrá-los.

  O Bacana do livro é que ele começa sendo escrito pelo próprio protagonista, terminando com os últimos Diários e a escrita final de seu outro filho Brian Fawcett(o que não morreu).

 E o mistério do desaparecimento continua, mesmo depois das conclusões inclusive dos irmãos Villas-Bôas, que,  tanto o coronel como demais membros da Expedição Fawcett foram assassinados por indígenas. Existem teses inclusive que eles viveram até a velhice, que tiveram filhos etc.

  Mais uma bom livro. O Coronel Percy não chega a ser um Sir Richard Francis Burton, mas dá o seu recado com grande capacidade descritiva e em certos momentos com um bom humor tipicamente inglês.

  E nessa edição da Editora Record ainda somos brindados com ótimas ilustrações do filho Brian Fawcett que me lembraram livros antigos de aventura daquelas coleções infantis.

  Sem contar as fotos em preto e branco de alta qualidade que servem para clarear e dar vida às narrativas.

  Pra quem gosta do gênero, verdadeira aula de história, etiologia e antropologia, de um tempo de muito interesse para compreensão da atualidade e toda a degradação e extermínio dos povos indígenas da América do Sul.







terça-feira, 20 de agosto de 2019

Confissões de um adolescente de 50 anos




Toelho. o original - antes da fuga




 (texto que escrevi pensando em história em quadrinhos numa pegada Trash estilo R. Crumb. Só falta o quadrinista.....)



Em meados dos anos oitenta eu era um adolescente rebelde;  andava de moto CB 400 sem habilitação e sem capacete, colocava bombonas e bombinhas em latas e latrinas, fumava baganas de cigarros com batons de henna e invadia casas em construção para pular dos sobrados em  montinhos de areia.

Era um misto de criança, adolescente e adulto, enfim eu era um nada a esquerda.

Mas era bonitinho, magrinho,  loirinho de olhos verdes.....com meu cabelinho mullet(eu ainda tinha) , jaqueta vinho com o Eddie the head nas Costas e um tênis chinesinho do Paraguai escrito “KISS” com caneta esferográfica.

Ia  nas festas juninas da Rua Visconde de Inhaúma e recebia pencas  de correios elegantes. Dançava com as menininhas de cabelos cacheados que me pagavam peitinhos saltitantes. Beijava pescoços desnudos de carne fresca sob os olhares desconfiados da família brasileira reacionária. TFP era o lema da classe média onde eu circulava. Resquícios da Ditadura em decadência.

Pichava muros nas madrugadas, muitos.... Em determinado período aprendi a fazer as baratinhas do Henfil. Eram baratinhas do Henfil enfeitando toda a cidade. Muros recém pintados eram minha preferência. Depois aprendi a desenhar o Fradim nas paredes. Só para criticar a igreja, o que fazia com grande satisfação, como um Gremlin enfurecido.

“PIXO, LOGO EXISTO!”.  Um dia pichei essa porra no muro do colégio de freiras onde estudava. Assim mesmo, errado, com X.

Também pichei solenemente no maior estilo “we dont’need no education”:“NÃO PRECISAMOS DE ORIENTADOR PEDAGÓGICO”.

Mas foi mal um dia ter pichado “Wesley Wiado”, no portão da casa do próprio. Seu pai queria matar o responsável por tamanho despautério.  Me escondi covardemente e me arrependo já que não tinha nada contra o Wesley nem Wiados, mas era moda criticar ou inventar a preferência sexual alheia. Coisa de moleque rebelde mal orientado no seio da família brasileira, classe média, reacionária TFP FDP. Hoje Wesley é casado, nunca foi gay, tem filhos e é um puta cara legal. Saravá my friend.

Nunca fui homofóbico ....talvez um anarquista.... ou um tremendo imbecil. Você escolhe. Gira a roleta do Silvio Santos.

Gostava ainda de fazer pipas coloridas e vendê-las pra ganhar uns trocos. Criava peixes ornamentais numa banheira velha para vender os cardumes e sustentar meus vícios em playboys, status e  Ele e Ela. Lebistes e morenas peitudas eram minha especialidade. Saudades da Mara Maravilha.

Vendia de tudo um pouco, jornal velho, garrafas, gibis velhos que herdei da minha prima Dulcinha.....A mesada era rala e mal dava para comprar a Playboy ou a Status do mês, o que  fazia religiosamente, sempre na banca da praça Camões que vendia revistas de mulher pelada para menores de 18 anos. Guardo minha coleção até hoje com imenso prazer.

Tarado? Pervertido? Doente? Foda-se. Gira a roleta novamente.

Tive porquinhos-da-índia, hamsters, galinhas e coelhos, além de duas cachorras e um gato. Esse coelho chamado Toelho um dia fugiu da gaiola e comeu todas as plantas da minha mãe. Ela saiu pela casa na Rua Visconde de Abaeté  com uma espingarda calibre 12 atrás dele com desejos assassinos. Toelho foi salvo pelas súplicas de minha irmã mais velha, bióloga e hippie formada na “Filô”. Gracias maninha. Ela detesta que eu a chame de hippie. (risos). Coisas do amor fraternal.

Tive também um boneco do fofão. Confesso. Mas isso é algo que gostaria de esquecer.

Subia em árvores, telhados em busca de vizinhas desnudas, fazia de tudo por uma ombreira ao cair na tarde,  e quebrava telhas e os pais dessas mesmas vizinhas, por conseguinte, “me adoravam” e viravam a cara para mim na rua. Tipo: lá vem aquele moleque sem educação. Ficava ressabiado esperando alguém gritar: “– Chamem os caça-fantasmas para eliminarem o homem de marshmallow"  .

Matei vários passarinhos com minha espingardinha de chumbo. Confesso. Um dia matei uma pomba e ela caiu estatelada bem em frente a minha mãe que costurava na sala do quarto de brinquedos, próxima à janela. Perdi minha espingardinha para sempre. Hoje sou a favor do desarmamento e ambientalista. Alguma coisa eu aprendi a duras penas nesse período. Muitas outras eu desaprendi...graças ao meu Santo Agostinho.

Ia no Pingüim da General Osório beber chope e o garçom nem perguntava a idade e ia colocando o maravilhoso liquido na mesa. Freqüento o local até hoje. Recomendo sem pestanejar.

Comia empregadas domésticas, ia em puteiros e hotéis baratos da Avenida Francisco Junqueira, gritando um belo foda-se para aids, gonorréia, sífilis etc. Mas na dúvida e pelo “medão” que imperava no ar, usava camisinha. Era um tal de não estou nem aí, estando bem aí. Entendeu? Se não entendeu não viveu nos anos oitenta. (risos). Medão du caralho!

Vivia com elas(domésticas) ouvindo rádio AM. Gostava da Gretchen, Fafá de Belém, Sidney Magal  e do Cumpadre Canarinho. Depois ia para o porão da casa do Silvio Kimura tocar guitarra e ouvir, Metálica, Iron Maiden e Accept. “Balls to the Wall man” 

Na TV era  a Matilde Mastrangi e Adele Fátima no “Sala Especial” da Rede Record. Madrugadas e madrugadas perdidas em busca de singelos peitinhos. Ingenuidade doentia.

No carnaval tinha confete, serpentina e lança-perfume nos suntuosos salões da Recra; jogava água com minha bisnaguinha e ovos nos carros que passavam pelas ruas. E nada acontecia, pois era Carnaval, tudo era permitido e as pessoas entravam no climão de paz, amor, romance e aventura da série  Armação Ilimitada.


Tocava musicas do Lulu no violão no Bar Ladeira; Um show do Paralamas na Cava do Bosque. Dançava agarradinho nas festinhas do Laguna e na vitrola tocava “Still Loving You” dos Scorpions.

Um dia eu e mais uma trupe de bêbados resolvemos fazer uma serenata para uma amiga, filha de um conhecido e saudoso médico da cidade. Pulamos o muro de sua mansão e posicionados embaixo de seu quarto  mandamos ver “Te amo Espanhola....Te amo Espanhola....” Seu pai apareceu na janela e disparou: “- Boa noite rapaziada. Minha filha está no Guarujá. Mas a música é boa, se quiserem, voltem na semana que vem!!”.

As vésperas da minha crisma(obrigatória) na Capela dos Estigmatinos, confessei ao padre que fugia da escola pulando a janela da capela. O padre riu e disse que eu era o trigésimo crismando que estava confessando a mesma coisa.

No intervalo, na cantina, dei muita porrada e levei também. Pratiquei bulling e fui “bullingnado” de todas as formas e todos os jeitos e tinha que me virar sem ajuda e sem frescura. Acho que essa porra toda me fez um bem danado! Agradeço a cada filha-da-puta que me esmurrou e me xingou. De coração, sem nenhuma demagogia.

Adorava uma guerra de mangas e passar trotes pelo telefone com meu amigo Marquinhos. Hoje ele é empresário e tem um bar na cidade que tem mesas e cadeiras em cinco esquinas.

No porão do colégio de freiras tinha uns quadros com figuras diabólicas. Ia lá com constância só para passar medo. E morria de medo. Eu confesso.

 Com a famosa brincadeira do copo, invoquei espíritos na sala do  centro cívico da escola(eu era vice-presidente) e o espírito era de um parente de uma amiga  não queria ir embora. Atualmente no lugar da velha escola Santa Úrsula na Rua São José tem  um Shopping-Center. Cinco pessoas suicidaram-se  no local desde então. Acredito que os quadros foram enterrados por ali mesmo. E que o tal espírito continua  lá, já que “não demos baixa” na “cerimônia macabra”.

Era um péssimo aluno e às vésperas de prova utilizava o Método Silva de Controle Mental “Main Control” para relaxar com os colegas em grupo de estudo e conseguir algum milagre em sala de aula, no dia seguinte. Por incrível que pareça dava certo. Passava de ano sem maiores dificuldades. Obrigado Sofia, minha colega portuguesa com certeza.

Nos intermináveis ensaios bolinava minhas coleguinhas na coxia do teatro. Tocava muita, mas muita bronha. Enquanto isso furtava acarás-bandeiras e samambaias d’água  nos aquários das freiras. Eu confesso.

Nos dias de deprê ao entardecer, o que era raro, ia a pé, assistir filmes da arte no Cine Clube Cauim na Rua Lafaiete. Qualquer filme, ia sem saber qual estava em cartaz. Sempre tinha um filme bom. Foi lá que estupefato assisti “Down by Law” de Jim Jarmusch com Tom Waits e “Juventude transviada” de Nicholas Ray, com James Dean dentre outras obras-primas que me tornaram um adolescente rebelde eterno. Tudo culpa do Kaxassa.

Quando meu pai saia a noite para ir em festas, casamentos ou congressos, roubava o seu carro VW TL para dar um role pela cidade com a vizinha Nanda. Hoje ela é advogada e assinou o meu divórcio. Antes de sair tomava um uísque Tiller’s que me corroia todo por dentro. E o fígado jovem agüentava. Lei seca? Coisa de americano do século passado.

Ia em festas de bicão e bebia uísque na faixa em casamentos de desconhecidos e ainda cumprimentava os noivos . Quando tinha grana(o que era raro) ia no S/A tomar vinho dando pinta de bacana. Muito Keep Cooler na Boite Sunshine. Depois ia tomar uma canja de galinha na Cantina Dei Fiori e confraternizar com os bêbados e prostitutas do local. Uma vez um amigo dormiu com a cara enfiada no prato de canja. Não tenho foto. Aliás foto era raridade nessa época.

Pois é....e por aí vai, e por aí foi; poderia ficar horas aqui relatando todas as mazelas, aventuras e desventuras  de um período que  não volta mais, sem chance, nem mesmo se tocar o vinil da Xuxa de trás pra frente.

E o que era bom ou mal terminou candidamente  com pulseirinhas verdes fosforescentes  num Show  do A-ha  no Parque Antártica. “Take on me”. E logo eu que sou corintiano ROXO.

E pra enterrar de vez os anos 80  o malfadado confisco da poupança da porra do  Governo Collor. Mais aí já é a década seguinte e a estória é bem outra....

Vai aí uma pequena sinopse:  Farras nas repúblicas da faculdade, viagens de ônibus de trinta horas  para Arraial D’Ajuda. Muita maconha no luau da praia do Parracho,  nudismo nas areias de Trancoso e praticando tai-chi-chuan pelado com a Márcia de Brasília, uma morena gostosa e alto astral que conheci na pousada, perto da  balsa, em Porto Seguro. Saudades do Miele e seu programa Cocktail!

Ahhhh Bahia de todos os santos. Tem também várias estórias de  Trindade, Arembepe e Machu Pichu. Se alguém pagar a cerveja ali no Bar Brasília eu conto.

E por incrível que pareça estou aqui, ao vivo, digo,  VIVO e a cores, careca e barrigudo, moto e capacete,  cinqüenta anos e escrevendo essas merdas. Bons tempos que não voltam mais, graças ao meu Santo Agostinho.

 Acho que se fosse adolescente hoje estaria passando umas férias  na  Fundação Casa.

E gira a roleta.


Fim


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Segredos de Alcova



Estou grávida, disse a mulher ao seu namorado gay.
O impacto o arremeteu e ele  passou a vociferar ferozmente
- Mas como Verônica...???.....nós nunca....amor por si só não é capaz de gerar um filho, geração espontânea? Faça-me o favor, você sabe, como isso pode acontecer? (silêncio)
- Dois anos, dois anos e sempre, bem, você sabe, sempre na borracha, pintos de borracha, brinquedinhos, carícias, linguinha pra te satisfazer plenamente. Minha pica nem sobe contigo, você sabe, você sabe.
- Apesar de tudo nos amamos, muuuitooo, curtimos a vida a dois, só eu e ti, viagens para Paquetá, Mongaguá
, ulalá...até pra Jaguariúna nós fomos?? como pode acontecer isso? ou melhor dizendo. QUEM É O PAI PORRA!?
- Fernando
- Porra, mas o Fernando também é gay, o negócio dele sempre foi homem, como isso pode acontecer! O lance dele sempre foi EU caaaraaaalho!
E nesse instante a mulher impávida e estupefata soltou um sonoro:
- COMO????
Após  dois longos minutos de silêncio, sem graça, Pablo respondeu bem baixinho:
- Você sabe, você sabe.....E saiu pelas ruas apressadamente, cabisbaixo em busca de um bar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, mais uma leitura




O que dizer ainda de um livro que já vendeu mais de 50.000.000 de exemplares? Que é considerada uma das mais importantes obras da literatura Hispânica, perdendo só para Dom Quixote de La Mancha? Pois é, mas como sou teimoso vou dar aqui os meus pitacos. Adorei reler o livro. Quando adolescente não tinha a maturidade e a paciência para perceber os detalhes da obra prima, de sua estrutura e seu realismo mágico, as constantes quebras de ritmo na narrativa que circula entre o real e o imaginário, o banal e o fantástico. O escritor cria um mundo imaginário totalmente inverossímil, porém deixando o leitor envolver-se em sua trama como se possível fosse. A saga do povoado de Macondo e a família Buendia-Iguarán e suas várias e sucessivas gerações, todas com acontecimentos trágicos, relacionamentos incestuosos, tragédias naturais, dilúvios, secas, guerras, é incrível como tudo acontece e pode acontecer no povoado de Macondo. Os vai e vens constantes entre períodos de bonança e tragédia. As diferentes personalidades dos Josés Arcadios e dos Aurelianos, pólos opostos em todas as gerações, a a constante insistência em batizar os novos filhos com os mesmos nomes dos anteriores, o que inclusive exige uma atenção redobrada para o leitor.
Bacana também que Macondo se coloca como um mundo imaginário possível e rebelde às margens da igreja, do exército, do governo, rebeldia personalizada nas campanhas liberais perpetuadas por Aureliano. Como se Macondo fosse um lugar único no mundo onde a influência externa não atinge o cerne da tradição interna. Onde a família Buendia-Iguarán não perde a voz e o poder, por mais trágicos que sejam os acontecimentos. O livro foi publicado pela primeira vez em 1967 onde a guerra contra estados totalitários estava muito em voga, e faz um crítica contumaz a esses estados ditatoriais que se impõem à força. E não é só, tem passagens belíssimas, com construções de ambientes surreais, com a casa da família passando por todas as intempéries, pinturas, invasões de musgo, águas, poeira, animais peçonhentos de várias espécies, o que certamente dará um belo filme, se bem trabalhado o roteiro e a fotografia. ( A Netflix comprou os direitos recentemente, algo que não foi permitido pelo escritor em vida). Muito interessante também a personagem Úrsula, que nunca morre e está presente durante todo livro até o malfadado último nascimento onde a maldição do último filho espúrio e com rabo de animal é confirmada. Durante todo o livro é mantido também um suspense sobre os pergaminhos de um cigano de nome Melquíades, que como um Nostradamus previa a decadência da família e do povoado, o que também é consumado no final do livro.
Livro rico em detalhes, em imaginação, humor, porque não e um toque de genialidade que em determinados momentos me fez lembrar um pouco de Jorge Amado e seu universo próprio e inigualável. Aliás acho que os dois eram amigos. Ou melhor eram mesmo. Acabo de ver uma foto dos dois conversando sobre medo de avião. Bons tempos de internet onde tudo é posto à prova de forma imediata. Gracias.
Pois bem recomendo mais esse sem pestanejar. Livro que ganhei da minha saudosa avó em 1993(vide dedicatória na foto acima) e que li duas vezes com imenso prazer. Parte da história já virou até música do Radiohead(Banana Co), e o nome da  banda “Francisco El Hombre” é inspirada num sanfoneiro errante Colombiano muito citado durante várias passagens do livro. Eu geralmente grifo várias linhas para depois escrever aqui, mas agora não estou conseguindo encontrar nenhuma (risos). Pelo menos tenho a oportunidade de rever as incríveis e belas gravuras de Carybé, baiano, também amigo de Jorge e do Gabriel.(27ª. Edição da Editora Record). Pra dizer que não tem citação lá vai uma que encontrei no site frasesfamosas.com.br “Para mim é suficiente ter a certeza que tu e eu existimos neste momento.” Vai lá, mais uma só, prometo: “Foram dois namorados felizes na multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousante e profundo que a felicidade arrebatada e momentânea das suas noites secretas.”
Livro portanto para ler, reler, sonhar, viajar e acredito que daqui a 100 anos teremos alguém falando dele em algum lugar, como agora, mais uma vez, mais uma leitura, mais um arrebatamento sem conotação cristã. Apenas um êxtase que só a alta literatura é capaz de proporcionar.

Texto original : Luiz Tinoco Cabral

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Algumas mulheres que "não comi" e outras misérias

Tempos atrás me pediram um texto para o livro "20 ficções sobre o Amor & Ribeirão Preto". Editora Coruja do saudoso Lau.  Segue o texto na íntegra abaixo, espero que gostem. Eu me diverti muito escrevendo.





ALGUMAS MULHERES QUE “NÃO COMI”  E OUTRAS MISÉRIAS


                                                                      “Há poesia
                                                                      Na flor
                                                                      Na dor
                                                                      No beija-flor
                                                                      No elevador”
                                                                            (Oswald de Andrade)

 INTRODUÇÃO (de leve)


Como ter inspiração e  escrever um estória de amor aqui nessa cidade alcoólica e cheia de fuligem ao som desse ar condicionado que não limpo a vinte anos quando só me ocorrem estórias frustradas de desamor e tesão reprimido da minha terrível adolescência? Então  resolvi compartilhar algumas dessas misérias para economizar com o analista.

Peço desde já as devidas desculpas para os/as mais sensíveis;  é que infelizmente na época dessas estórias a classificação era  primitiva mesmo: comi , não comi. E na inexistência do computador pessoal e das planilhas do excel, era tudo anotado com caneta bic e contabilizado num caderno faber castell. É isso mesmo...sempre fui um romântico incorrigível e saudosista como dá para perceber.

Saliento que isso é uma obra de autoficção portanto:

·        os nomes e situações aqui citados(as) são quase fictícios(as) –  qualquer semelhança é mera coincidência ou quase.
·        Não se trata de uma livre autobiografia ou quase
·        Enfim é uma tremenda de uma mentira deslavada ou quase.



1) MARIELA

Nasci em Ribeirão Preto, no interior paulista, região que não se confunde com o sul de minas. Portanto a primeira mulher que não comi não é uma cabritinha ardente e fogosa chamada Mariela  que foi para a churrasqueira ainda cedo. Não....
Mariela era uma delícia da espécie humana;  morena cabelos compridos, seios começando a pipocar no resplandecer de seus 10 aninhos estudando  na 4ª. série “E”  do Colégio de freiras onde estudávamos. De uma das famílias mais tradicionais da minha cidade.
Bastava vê-la para eu ter uma ereção involuntária sem saber do que se tratava já que também tinha 10 anos e o sexo era um assunto inexistente na minha casa. E acho que sequer eu ligava para isso já que só pensava em bola, figurinhas, pipa, “bets”, bombas em latas, explosões em privadas da escola... e nas minhas ereções involuntárias quando via Mariela sem saber do que se tratava – portanto não era um problema já que segundo Lao TseQuem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão". E era uma ilusão boa, salutar nascida da inocência que posteriormente e fatalmente viria a perder.
Dentro desta minha ilusão e ignorância comecei a procurar paradigmas nas novelas de televisão e maneiras de me aproximar da minha primeira musa da infância que mal me conhecia e sequer sonhava com as minhas ereções involuntárias apesar de ser minha vizinha de rua e ter uns pais bem sacanas e liberais, o que vim a saber muitos anos depois quando comi a sua mãe. Acho que ela nunca tinha beijado ninguém na boca. Eu só beijava a minha irmã mais velha mas isso não conta já que era só treino, sem qualquer envolvimento emocional. Beijo técnico. Beijava também a minha cadela “Nina” mas isso é algo nojento que gostaria sinceramente de esquecer.
Era o ano de 1979, Figueiredo cavalgava suas potrancas e soltava frases de efeito: "Prefiro o cheiro do estrume de cavalo do que o  cheiro do povo". E eu naquele impasse romântico amoroso involuntário. O que fazer?
Após assistir a novela Cabocla e ouvir aquela música do Wando “gosto de maçã” que dizia: “Nas mãos uma rosa vermelha na boca um gosto de maçã” a brilhante idéia pipocou, de súbito em minha cabeça – como os peitinhos de Mariela – Como bom ariano impulsivo, com uma rosa na mão, andei os 100 metros que separavam a minha casa da dela e toquei  a campainha. A distância me pareceu quilômetros. A casa dela um palacete maior do que era. Parecia que tinha subido no pé de feijão e me deparado com o Castelo do Gigante. Seu pai abriu a porta.(cara de mau) – Pois não? Como diria o Wando o “coração agitava no peito... no ventre a vontade explodia” e eu disse – A Mari está? Para minha alegria ou desespero ela estava. – Vou chamar espera aí? Ela apareceu descalça com um shortinho delicioso e uma camiseta do Mickey Mouse. Podia ver aquela penugem dourada nos seus braços finos, sua boca carnuda, seus olhos de mel olhando para mim sem compreender o que eu estava fazendo lá parado na sua frente. Automaticamente lhe entreguei a rosa vermelha, mais vermelha que meu rosto tímido e sem sequer beijar seu rosto fui logo disparando – q.. q.. que..quer namorar comigo! E então por um tempo que me pareceu uma eternidade esperei a resposta sinceramente me colocando no lugar da garotinha e esperando um sonoro  NÃO. Foi quando a surpresa me presenteou. A menina reticente  disse – Não...sei..vou pensar. – Então tá! – Tá – Tchau. Te vejo na escola – e virei às costas.
Ocorre que como bom ariano impulsivo, os impulsos vem...os impulsos vão...e eu não esperava aquela situação em aberto, suspensa no ar, sem uma definição. Era bem melhor ter recebido um NÃO! ou VAI TOMAR NO CÚ! (o que de certo seria ótimo, salutar e merecido). Mas não. Ela foi sacana ao extremo e prolongou todo o ridículo da situação. E depois de uma noite mal dormida a ficha caiu. Tudo  aquilo era ridículo...muito ridículo. Ela era a menina mais popular e bonitinha  da escola e eu não passava de um garoto que imitava os rebolados do John Travolta em “Os Embalos de Sábado a Noite” para ganhar alguns prêmios simbólicos em concursos de dança e uma certa popularidade. Ela usava roupas de grife e eu tinha uma santa mãe que bordava grifes em minhas roupas. Depois disso a timidez me entorpeceu e dominou meu ser. Passei o resto da minha 4ª., 5ª. e 6as. séries me escondendo da garota, retardando a minha descida de escada nos horários de pico, sonhando em nunca ter tido a brilhante e impulsiva idéia de ir na sua mansão naquele dia. Enfim, nem preciso dizer que a resposta nunca veio  e  espero-a até hoje e que nos meus 10 aninhos  descobri de forma dura e cruel o que significa o desprezo absoluto. Como vingança e conforme já narrado acima comi a sua mãe sacana que  por coincidência 7 anos depois era da minha turma de francês na Aliança Francesa da Rua Lafaiete e adorava um garotão...e adorava trair o seu marido que certamente também adorava traí-la. Com a coroa enxuta foi tudo mais fácil! No final da aula de francês eu disse! – Vous avec couche avec moi??? E ela respondeu – oui!!!!!!ulalá!!!! sorrindo sacanamente. Fomos no seu carro  para o Motel Manhatam e eu tive a grata felicidade de comê-la por inteiro e várias vezes. Tinha uma bunda maravilhosa!!!! Na saída ela pagou a conta e me deixou a 100 metros de minha casa. Foi uma caminhada leve e agradável. Lembrei-me de Grahan GreeneA vingança é salutar ao caráter; dela brota o perdão." Também depois daquela trepada eu perdoava até mesmo Adolf Hitler; até mesmo Fernando Collor que   tempos depois confiscou minha poupança. Bem menor do que a poupança da mãe da Mariela, diga-se, em todos os sentidos;


2) JOANINHA

Joaninha era minha prima de 5º. Grau. Loirinha, olhos verdes, peituda, baixinha e invocada como Mike Tyson. Se lhe dessem oportunidade em uma briga arrancaria a orelha de seu oponente. Um Pity Bul ensandecido. Nunca vi mulher igual. Na 7ª. série no ano de 1982 pela primeira vez os meus trejeitos do John Travolta surtiram efeito e ela se apaixonou por mim. E eu por ela. Ficamos abraçadinhos na Danceteria Sunshine. Dois baixinhos de olhos claros, rostinho de criança, 13 aninhos andando de mãos dadas pelos casamentos dos parentes que olhavam e achavam graça  e em decorrência quase apanhavam da Joaninha. Lembro-me de um dia dos namorados. Com muito custo e com uma grana emprestada da minha santa mãe fui na Kopenhaguen da Rua Barão do Amazonas e comprei uma caixa média de bonbons Gianduia. E ela me deu o mesmo presente – uma caixa média de bombons Gianduia.(quase comprei a caixa pequena para economizar). Aprendi com a Joaninha também que uma homem não deve ser covarde. Os caras davam em cima dela  na minha frente e eu nada fazia. Um rapagão imbecil (maior do que Eu) um dia numa festa chegou a me perguntar se eu não “emprestava” a Joaninha para ele namorar e eu nada fiz, ou melhor, disse titubeante  que ela não era um objeto e que ela ficava com quem ela quisesse e no momento ela me queria e coisa e tal...e quando ela veio a saber da pergunta indecorosa(eu lhe contei!) foi lá e fez o que eu deveria e tinha a obrigação de fazer e não fiz. – Deu-lhe um chute no saco e deixou-o chorando e agonizando na presença de todos os seus outros amigos. Fantástica a Joaninha. Mas a minha timidez oriunda talvez do incidente “Mariela”, me levou a um namoro de  apenas quatro meses onde eu pegava a minha Caloi 10 amarela  ia até a sua casa, sentava na escada em frente e ficava batendo papos artificiais e comendo Gianduia. Nada NADA – quatro meses de namoro sem um beijo sequer. Gostaria muito de ter comido a Joaninha ou ao menos um beijo de recordação  mas a timidez a covardia e o desprezo anterior me sufocaram totalmente. E o engraçado é que os caras das gangues rivais invocavam comigo. Me achavam o máximo  e eu era o alvo de convocações diárias para brigas na saída da Sunshine que  burramente declinava. Deveria ter conhecido  Hemingway mais cedo  e incorporado a sua “macheza”. Mas não. Muito pelo contrário o Brasil com um time fantástico de Futebol, Sócrates, Zico, Falcão e outros conseguiu perder a Copa do Mundo naquele ano. E eu por conseqüência  perdi para sempre a coragem e a Joaninha. Tempos depois eu fui para São Paulo prestar vestibular e tentei encontrá-la. Sabia que  trabalhava como frentista num posto na Brigadeiro Luis Antônio e morava com um cara horroroso grosseirão que veio abrir a porta de sua kitinete enrolado numa toalha. Cheiro de maconha no ar. Perguntei se era a casa da ...Júlia. – Não maluco! – virei às costas e fui embora. Depois de um tempo fiquei sabendo que ela casou , separou, teve filhos....Um dia nos encontramos numa festa estilo “flash backna Sociedade Recreativa e de Esportes. Sem perceber que eu estava com minha esposa do lado veio e me deu um abraço forte, muito forte como nunca antes,  com muito carinho. Deveria ter lhe lascado um beijo na boca, de língua, molhado. Afinal Hemingway já fazia parte da minha vida. Mas minha urbanidade e pânico ressurgiu das catacumbas. Sem graça lhe apresentei minha esposa e educadamente, estranhamente e evasivamente  saí para ver o Show do Rod/Hanna, sob o olhar desconfiado da minha companheira. Chegando em casa  eu lhe contei toda esta história – Nem um beijo sequer, acredite!!!!. E ela não acreditou. Fazer o quê! O Brasil perdeu a Copa de 82 e eu também não acredito até hoje.


3) ECLAIR

Essa eu comi. Sei que vc deve estar pensando – o que essa garota está fazendo num conto  sobre algumas  das mulheres que NÃO comi. Sei lá! É que deu vontade de falar da Eclair;  com certeza na minha construção psicológica ou inconsciente deve ter alguma importância. Ou melhor – para justificar sua inclusão eu a comi uma única vez ou uma meia-vez  e portanto pode estar aqui já que não comi pela segunda e tenho vontade até hoje de dar a segunda. Se é que vocês me entendem.(???) Eclair era morena tinha uns traços indígenas, bocas carnudas e sensuais(as duas); Magra, muito magra, magérrima com uns peitos que pareciam pipoca de microondas. Sua bunda parecia uma tábua de passar roupa  com a textura daquela almofadinha azul e tinha um jeito mole de falar que me fascinava. Em contraste com a dureza de meu pênis quando ouvia a sua voz de arraia mortífera. Conheci a figura sui generis e gostosa  na casa do “Birigui”. Um amigo mais velho que morava na República “A transmutação das virgens”; Nome pomposo e de mal gosto(mas muito apropriado). Era comum entrarmos na sala sem bater e encontrar o Birigui batendo uma punheta ou comendo uma menina de quatro no sofá ou mesmo na piscina com uma mina fazendo boquete e quase morrendo afogada. República de rico com piscina, uísque e coquetéis diversos. Um dia lá estava a Eclair, melhor amiga da namoradinha do Birigui. O ano era 1984, minha diversão se resumia  em andar de fusca azul com meu amigo Dunha e ir de “bicão” em festas descoladas para descolar bebida gratuita. Já ia em puteiros com freqüência. E com freqüência era barrado por causa da minha carinha de criança carente e mimada.
Pois bem. Obrigados ao Agildo Ribeiro e sua múmia paralítica. Trimmmm. Saudades da Bruna Lombardi.
 Ela de cara gostou dos meus olhos verdes. Esmeraldas responsáveis por muitas trepadas(obrigado vovó!). Com sua voz molenga me disse. – Onndee voocêe dessscolooou essess olhosss verrdess? – Herança de vovó! (meu Deus como eu era babaca!) Mas por incrível que pareça ela sorriu e o papo foi tomando rumos concretos a lá Haroldo de Campos  e que acabaram concretizando uma ida ao Motel Manhattan (lembra?) Era o mais barato na época – e dentro da cidade !! que evitava a necessidade de carro. Fomos de táxi! Cruzes que horror! Chegando lá fomos para o quarto mais barato e Eclair foi desnudando sem pudores aquela tábua magérrima com seus bicos entumescidos e lábios carnudos(os dois). Eu logo fiquei pelado com o instrumento em riste. Que aliás já estava em riste na casa do Birigui, no táxi, na recepção e agora no quarto. – Ceeee teeeemmmm caaamiissinha? – Tenho ta aqui ó!. Com um lance profissional parafusou a dita cuja na boca e vestiu concomitantemente o meu instrumento enquanto fazia um delicioso boquete. Mulher de classe. Muita classe, diria até classuda e boqueteira profissional. Ahh Eclair, quanta alegria para uma garotinho carente e mimado de apenas 16 aninhos.... Eclair foi a primeira mulher que me ensinou a fazer as coisas bem feito sem pressa com profissionalismo e competência. Mas tudo que é bom dura pouco. A camisinha explodiu. Minha Hiroshima sem meu amor. Cogumelo atômico. E no exato momento lancei toda a minha carga radioativa por dentro dos lábios carnudos das regiões baixas daquela floresta oriental.
Acordei do pesadelo atômico de ressaca moral. – Vou virar papai!
Duas semanas de férias no Guarujá em crise existencial com o cú na mão. Depois de dois meses liguei pra ela. - E aí tudo bem? - Nossa quanto tempo? - Como está sua saúde? - TEM MENSTRUADO ULTIMAMENTE? – Sim claro! Bobinho. Ahhh!!!! que bobinho delicioso. Desliguei o telefone. A vida voltava ao normal. Passemos para outra, prometo que é a última.


4)    ANDRESSA DA “SUNSHINE”;

Andressinha , tatuagem e peitos de ouro. 1985. Que peitos. Nunca vi coisa igual e meu amigo Magalhães também não. Encostava nos muros nas paredes e ficava beijando e me esfregando naqueles peitões até ejacular na calça. Depois chegava em casa todo molhado, suado e dizia para a lavadeira que tinha caído  água de coco na calça. Mas eu era um duro em todos os sentidos. Não tinha grana para nada, para motel, não tinha carro e só ia na “Sunshine” porque era de graça e perto da minha casa. Ela tinha umas pintinhas sexys por todo corpo que tornavam o conjunto mais interessante ainda. Brotoejas. E nada mais acontecia; foi o meu período de esfoliação de esfregação ao som do The Cure e do Smiths. Titãs e seus “bichos escrotos”. Eu era a encarnação do bicho escroto dos Titãs. Um coelhinho branco, peludo e  enraivecido. Depois de um tempo a Andressinha percebeu a canoa furada que tinha embarcado e me deixou lá... ao lado daquela quadra de tênis, olhando para minha raquete e minhas duas bolas desolado. Começou a namorar um punk drogado vocalista de uma banda “hardcore” e caiu na vida sem para-quedas. Parou de ir na “Sunshine” e começou a freqüentar um bar “roquenrou” na Avenida Treze de Maio. Ficou louca, clínicas de tratamento e o escambau a quatro. Outro dia encontrei o Magalhães. –Onde anda a Andressinha? Perguntei. Ele também não sabia. Mas como gostaria de saber; E terminar o serviço que mal comecei. O Magalhães também. Já rodei todos os sites de relacionamento  e nada. Sequer sei seu sobrenome. Ai vai meu apelo:  Andressinha – Onde quer que você e seus peitões estejam. - Voltem para mim!

5)    CASSANDRA RIOS – A MUSA


Lembra lá acima quando falei que era a última? Pois bem eu menti aliás como venho mentindo desde a primeira linha desse conto de amor às avessas. É que não poderia deixar de fora a musa, aquela que povoou minha imaginação, meus sonhos em banheiros, bordéis baratos e quartinhos de empregadas. CASSANDRA RIOS, a virgem dos lábios de mel...... Na década de 80 me acompanhou por vários anos no colégio onde tive a oportunidade de contracenar com ela em uma peça de teatro no início da minha vida artística. O tema da peça era a evolução das escolas literárias no Brasil. Eu era José de Alencar e declamava com todo o meu romantismo o texto do livro homônimo, ela uma Iracema linda... tão linda quanto a Helena Ramos, gostosa como a Matilde Mastrangi. Insinuava-se com um biquíni minúsculo atrás de um pano iluminado, teatro de sombras, para o deleite da platéia que curtia sua silhueta  enorme e suas curvas para lá de sinuosas. Eu no entanto devido a posição no palco tinha uma visão dupla – a sombra em frente ao palco e ela linda em carne viva, a cores e em três dimensões dançando atrás do palco só para mim. Um sonho shakesperiano numa noite de verão. Uma apoteose. Ahhhhh!!!!!! Tempos depois fomos conhecer Ouro Preto em uma excursão escolar e inspirado por José da Silva Xavier o Tiradentes tentei beijá-la sem êxito ficando com meu coração esquartejado. Ela era daquelas provocadoras contumazes que pulam fora. Uma grande atriz de muito talento, capaz de encarnar uma santa e uma biscate ao mesmo tempo. Por falar em tempo... avançando nele já na Faculdade tentei várias vezes....fomos no teatro municipal ver uma peça com a Malu Mader e o Taumaturgo FerreiraDores de amores” e após o espetáculo nada novamente. Fiquei só mais uma vez com as minhas constantes dores dos amores não correspondidos da adolescência. Recentemente ela me procurou, marcou horário. Contente e muito bem intencionado a recebi no meu escritório, passei o meu melhor perfume, penteei meus parcos cabelos, desmarquei os clientes do dia. Nada feito. Só queria me vender uma rifa para ajudar crianças carentes. Que horror!!!! Comprei contrariado. Sinceramente acho que ela, como boa atriz que é, joga no time da Greta Garbo “-I want to be alone”. Desisto!  E vivas ao Grahan Greene outra vez!  (risos)


       EPÍLOGO (orgasmo)

Dentre essas e outras e mais algumas aí vai um relato quase-sincero de algumas das minhas banalidades mundanas dessa época terrível de insegurança, incertezas, calor infernal, mulheres peitudas (sem silicone) e muita punheta. Espero que tenha servido para desmistificar e  mostrar o quanto a minha adolescência foi comum e a sua também. Amém.