quinta-feira, 18 de junho de 2026

NEM TENTE

 


 

        Sábado, 19 de maio de 2012,  lá estava eu na estrada da laranja a caminho da cidade dos Dinossauros.

        Atrasado, Feira do Livro,  palestra em andamento, na platéia seis almas penadas, um saci e uma mula sem cabeça.  

        O escritor me olha  e dispara  “- Estava esperando por você!”

        Surpreso, mezzo mussarela, mezzo calabresa, me desculpo pelo atraso. Ele esclarece que não tem problema:

        - Conheço todos os leitores amigos do Orkut, não são muitos. – e dá uma risada .

        A palestra segue com um bate papo informal entre eu e ele. Era o único que conhecia a sua obra com afinco.

        Fim da palestra. Fui pedir uma dedicatória no livro “Charque” e  fazer a tradicional selfie. A galera da organização da Feira nos chama para um café. M.M. diz que prefere um bar.

        Depois de muitas cervejas, ele me fala:

        - Só estou aqui porque o cachê é bom,  não costumo receber esses convites,  já briguei com todo o cercadinho do mundo literário, queria mesmo era estar com uma mulher que sai ontem, não consigo esquecê-la. Ela nua de quatro, com o rosto virado para trás e um olhar libidinoso que nunca vi igual. Estou obcecado . Vou  escrever um conto ou um romance sobre ela. - E você o que faz da vida?

        - Sou advogado, atuo na área trabalhista, mulher, filho, quanto a escrever tenho pretensões, escrevo alguns contos, crônicas, tenho um blog de literatura, mas nunca publiquei.

        - Esquece, desista, só escrevo pois não sei fazer mais nada, admiro quem tem um ofício prático. Vai advogar, curtir a vida, sua mulher, seu filho, tomar cerveja, fazer churrasco, apreciar um espeto corrido, sol, churros, basta um verniz para ser feliz.

        Lembrei-me da conhecida frase do próprio M.M. :“ser escritor é uma profissão para quem gosta de brigar consigo mesmo”

        Bêbados terminamos a noite, num bordel, nos arredores de Jaboticabal.


        

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