Toelho. o original - antes da fuga
(texto que escrevi pensando em história em
quadrinhos numa pegada Trash estilo R. Crumb. Só falta o quadrinista.....)
Em meados dos anos oitenta eu era um adolescente rebelde; andava de moto CB 400 sem habilitação e sem
capacete, colocava bombonas e bombinhas em latas e latrinas, fumava baganas de
cigarros com batons de henna e invadia casas em construção para pular dos
sobrados em montinhos de areia.
Era um misto de criança, adolescente e adulto, enfim eu era
um nada a esquerda.
Mas era bonitinho, magrinho, loirinho de olhos verdes.....com meu cabelinho
mullet(eu ainda tinha) , jaqueta vinho
com o Eddie the head nas Costas e um
tênis chinesinho do Paraguai escrito “KISS” com caneta esferográfica.
Ia nas festas juninas
da Rua Visconde de Inhaúma e recebia pencas
de correios elegantes. Dançava com as menininhas de cabelos cacheados
que me pagavam peitinhos saltitantes. Beijava pescoços desnudos de carne fresca
sob os olhares desconfiados da família brasileira reacionária. TFP era o lema
da classe média onde eu circulava. Resquícios da Ditadura em decadência.
Pichava muros nas madrugadas, muitos.... Em determinado
período aprendi a fazer as baratinhas do Henfil.
Eram baratinhas do Henfil enfeitando
toda a cidade. Muros recém pintados eram minha preferência. Depois aprendi a
desenhar o Fradim nas paredes. Só
para criticar a igreja, o que fazia com grande satisfação, como um Gremlin enfurecido.
“PIXO, LOGO EXISTO!”. Um dia pichei essa porra no muro do colégio de
freiras onde estudava. Assim mesmo, errado, com X.
Também pichei solenemente no maior estilo “we dont’need no education”:“NÃO PRECISAMOS
DE ORIENTADOR PEDAGÓGICO”.
Mas foi mal um dia ter pichado “Wesley Wiado”, no portão da
casa do próprio. Seu pai queria matar o responsável por tamanho despautério. Me escondi covardemente e me arrependo já que
não tinha nada contra o Wesley nem Wiados,
mas era moda criticar ou inventar a preferência sexual alheia. Coisa de moleque
rebelde mal orientado no seio da família brasileira, classe média, reacionária
TFP FDP. Hoje Wesley é casado, nunca foi gay, tem filhos e é um puta cara
legal. Saravá my friend.
Nunca fui homofóbico ....talvez um anarquista.... ou um
tremendo imbecil. Você escolhe. Gira a roleta do Silvio Santos.
Gostava ainda de fazer pipas coloridas e vendê-las pra
ganhar uns trocos. Criava peixes ornamentais numa banheira velha para vender os
cardumes e sustentar meus vícios em playboys,
status e Ele e Ela. Lebistes e
morenas peitudas eram minha especialidade. Saudades da Mara Maravilha.
Vendia de tudo um pouco, jornal velho, garrafas, gibis
velhos que herdei da minha prima Dulcinha.....A mesada era rala e mal dava para
comprar a Playboy ou a Status do mês, o que fazia religiosamente, sempre na banca da praça
Camões que vendia revistas de mulher pelada para menores de 18 anos. Guardo
minha coleção até hoje com imenso prazer.
Tarado? Pervertido? Doente? Foda-se. Gira a roleta
novamente.
Tive porquinhos-da-índia, hamsters, galinhas e coelhos, além
de duas cachorras e um gato. Esse coelho chamado Toelho um dia fugiu da gaiola e comeu todas as plantas da minha
mãe. Ela saiu pela casa na Rua Visconde de Abaeté com uma espingarda calibre 12 atrás dele com
desejos assassinos. Toelho foi salvo pelas súplicas de minha irmã mais velha,
bióloga e hippie formada na “Filô”. Gracias
maninha. Ela detesta que eu a chame de hippie. (risos). Coisas do amor
fraternal.
Tive também um boneco do fofão. Confesso. Mas isso é algo
que gostaria de esquecer.
Subia em árvores, telhados em busca de vizinhas desnudas,
fazia de tudo por uma ombreira ao cair na tarde, e quebrava telhas e os pais dessas mesmas
vizinhas, por conseguinte, “me adoravam” e viravam a cara para mim na rua.
Tipo: lá vem aquele moleque sem educação. Ficava ressabiado esperando alguém
gritar: “– Chamem os caça-fantasmas
para eliminarem o homem de marshmallow" .
Matei vários passarinhos com minha espingardinha de chumbo.
Confesso. Um dia matei uma pomba e ela caiu estatelada bem em frente a minha mãe
que costurava na sala do quarto de brinquedos, próxima à janela. Perdi minha
espingardinha para sempre. Hoje sou a favor do desarmamento e ambientalista.
Alguma coisa eu aprendi a duras penas nesse período. Muitas outras eu desaprendi...graças
ao meu Santo Agostinho.
Ia no Pingüim da General Osório beber chope e o garçom nem
perguntava a idade e ia colocando o maravilhoso liquido na mesa. Freqüento o
local até hoje. Recomendo sem pestanejar.
Comia empregadas domésticas, ia em puteiros e hotéis baratos
da Avenida Francisco Junqueira, gritando um belo foda-se para aids, gonorréia,
sífilis etc. Mas na dúvida e pelo “medão” que imperava no ar, usava camisinha.
Era um tal de não estou nem aí, estando
bem aí. Entendeu? Se não entendeu não viveu nos anos oitenta. (risos).
Medão du caralho!
Vivia com elas(domésticas) ouvindo rádio AM. Gostava da
Gretchen, Fafá de Belém, Sidney Magal e
do Cumpadre Canarinho. Depois ia para
o porão da casa do Silvio Kimura tocar guitarra e ouvir, Metálica, Iron Maiden
e Accept. “Balls to the Wall man”
Na TV era a Matilde
Mastrangi e Adele Fátima no “Sala Especial” da Rede Record. Madrugadas e
madrugadas perdidas em busca de singelos peitinhos. Ingenuidade doentia.
No carnaval tinha confete, serpentina e lança-perfume nos
suntuosos salões da Recra; jogava água com minha bisnaguinha e ovos nos carros
que passavam pelas ruas. E nada acontecia, pois era Carnaval, tudo era
permitido e as pessoas entravam no climão de paz, amor, romance e aventura da
série Armação Ilimitada.
Tocava musicas do Lulu
no violão no Bar Ladeira; Um show do
Paralamas na Cava do Bosque. Dançava agarradinho nas festinhas do Laguna e na
vitrola tocava “Still Loving You” dos
Scorpions.
Um dia eu e mais uma trupe de bêbados resolvemos fazer uma
serenata para uma amiga, filha de um conhecido e saudoso médico da cidade.
Pulamos o muro de sua mansão e posicionados embaixo de seu quarto mandamos ver “Te amo Espanhola....Te amo
Espanhola....” Seu pai apareceu na janela e disparou: “- Boa noite rapaziada.
Minha filha está no Guarujá. Mas a música é boa, se quiserem, voltem na semana
que vem!!”.
As vésperas da minha crisma(obrigatória) na Capela dos Estigmatinos, confessei ao padre que
fugia da escola pulando a janela da capela. O padre riu e disse que eu era o
trigésimo crismando que estava confessando a mesma coisa.
No intervalo, na cantina, dei muita porrada e levei também.
Pratiquei bulling e fui “bullingnado” de todas as formas e todos os jeitos e
tinha que me virar sem ajuda e sem frescura. Acho que essa porra toda me fez um
bem danado! Agradeço a cada filha-da-puta que me esmurrou e me xingou. De
coração, sem nenhuma demagogia.
Adorava uma guerra de mangas e passar trotes pelo telefone
com meu amigo Marquinhos. Hoje ele é empresário e tem um bar na cidade que tem
mesas e cadeiras em cinco esquinas.
No porão do colégio de freiras tinha uns quadros com figuras
diabólicas. Ia lá com constância só para passar medo. E morria de medo. Eu
confesso.
Com a famosa
brincadeira do copo, invoquei espíritos na sala do centro cívico da escola(eu era
vice-presidente) e o espírito era de um parente de uma amiga não queria ir embora. Atualmente no lugar da
velha escola Santa Úrsula na Rua São José tem um Shopping-Center. Cinco pessoas suicidaram-se no local desde então. Acredito que os quadros
foram enterrados por ali mesmo. E que o tal espírito continua lá, já que “não
demos baixa” na “cerimônia macabra”.
Era um péssimo aluno e às vésperas de prova utilizava o
Método Silva de Controle Mental “Main
Control” para relaxar com os colegas em grupo de estudo e conseguir algum
milagre em sala de aula, no dia seguinte. Por incrível que pareça dava certo.
Passava de ano sem maiores dificuldades. Obrigado Sofia, minha colega
portuguesa com certeza.
Nos intermináveis ensaios bolinava minhas coleguinhas na
coxia do teatro. Tocava muita, mas muita bronha. Enquanto isso furtava
acarás-bandeiras e samambaias d’água nos
aquários das freiras. Eu confesso.
Nos dias de deprê ao entardecer, o que era raro, ia a pé,
assistir filmes da arte no Cine Clube Cauim na Rua Lafaiete. Qualquer filme, ia
sem saber qual estava em cartaz. Sempre tinha um filme bom. Foi lá que
estupefato assisti “Down by Law” de Jim Jarmusch com Tom Waits e “Juventude
transviada” de Nicholas Ray, com James Dean dentre outras obras-primas que me
tornaram um adolescente rebelde eterno. Tudo culpa do Kaxassa.
Quando meu pai saia a noite para ir em festas, casamentos ou
congressos, roubava o seu carro VW TL para dar um role pela cidade com a
vizinha Nanda. Hoje ela é advogada e assinou o meu divórcio. Antes de sair
tomava um uísque Tiller’s que me
corroia todo por dentro. E o fígado jovem agüentava. Lei seca? Coisa de
americano do século passado.
Ia em festas de bicão e bebia uísque na faixa em casamentos
de desconhecidos e ainda cumprimentava os noivos . Quando tinha grana(o que era
raro) ia no S/A tomar vinho dando pinta de bacana. Muito Keep Cooler na Boite Sunshine.
Depois ia tomar uma canja de galinha na Cantina Dei Fiori e confraternizar com
os bêbados e prostitutas do local. Uma vez um amigo dormiu com a cara enfiada
no prato de canja. Não tenho foto. Aliás foto era raridade nessa época.
Pois é....e por aí vai, e por aí foi; poderia ficar horas
aqui relatando todas as mazelas, aventuras e desventuras de um período que não volta mais, sem chance, nem mesmo se
tocar o vinil da Xuxa de trás pra frente.
E o que era bom ou mal terminou candidamente com pulseirinhas verdes fosforescentes num Show do A-ha no Parque Antártica. “Take on me”. E logo eu
que sou corintiano ROXO.
E pra enterrar de vez os anos 80 o malfadado confisco da poupança da porra do Governo Collor. Mais aí já é a década seguinte
e a estória é bem outra....
Vai aí uma pequena sinopse: Farras nas repúblicas da faculdade, viagens de
ônibus de trinta horas para Arraial
D’Ajuda. Muita maconha no luau da praia do Parracho, nudismo nas areias de Trancoso e praticando tai-chi-chuan pelado com a Márcia de
Brasília, uma morena gostosa e alto astral que conheci na pousada, perto da balsa, em Porto Seguro. Saudades do Miele e
seu programa Cocktail!
Ahhhh Bahia de todos os santos. Tem também várias estórias
de Trindade,
Arembepe e Machu Pichu. Se alguém pagar a cerveja ali no Bar Brasília eu
conto.
E por incrível que pareça estou aqui, ao vivo, digo, VIVO e a cores, careca e barrigudo, moto e
capacete, cinqüenta anos e escrevendo
essas merdas. Bons tempos que não voltam mais, graças ao meu Santo Agostinho.
Acho que se fosse adolescente
hoje estaria passando umas férias na Fundação Casa.
E gira a roleta.
Fim


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