Moro só ao lado da Rodoviária, lua cheia, um barulho
ensurdecedor de um ônibus esperando a hora da partida. Uma mulher sem graça
conversa com um cara de camisa amarela, uma gorda negra a lembrar uma pintura
de Botero, um guarda cinza e uma família sorridente. Nenhuma musa. Meu vizinho
na varanda me cumprimenta e reclama do barulho do ônibus. Ele ainda não se
acostumou. Nada que sete ou oito meses não resolvam. Volto para o Chet Baker
“Polk Dots And Moombeans”, “Autum Leaves”, contraste, realidade, sonho, loucura
e desejo reprimido de estar num Pub em Amsterdan. A vida nos prega cada uma....
Ribeirão Preto e seus bares sertanejos sem raiz. Penso na música pobre e sem
graça dos dias de hoje, todas iguais, todas igualmente comerciais. Onde estarão
os gênios, os incompreendidos, os malucos
que nadam contra a maré, e nos proporcionam momentos únicos e prazerosos provenientes da
matéria liberdade. Ahhhh a brisa do mar a música os bons ventos alísios de navegação
musical. A real música, da criatividade, improviso e genialidade. Como pode um cara destes morrer
aos cinqüenta e oito anos despencando de uma janela do quarto 210 do “Hotel
Prins Hendrick”? Como não fazer uma associação com Jimi Hendrix que morreu na
flor da juventude no auge de 1970 asfixiado pelo próprio vômito em Nothing
Hill? É....pois é... a morte não escolhe hora nem local, e está sempre a
espreita nos observando. Chega para gênios e medíocres, velhos, meia idade e
jovens indistintamente. De súbito um vento adentra o meu quarto no terceiro
andar. Que não seja a morte, que seja uma brisa de promessas, de vida, vinda da
lua cheia, da música maravilhosa de Chet Baker, “Alone Toghether” Sozinho e
juntos, eu e a morte, eu e a vida. Clareza e escuridão. Que o tempo a brisa e a
lua me levem para o lado certo do Yin e do Yang. E esse ônibus do barulho
ensurdecedor para onde ele, o vento, faz a curva! Se ainda não fosse quinta-feira
beberia uma cerveja agora. Continuo a
ler mais um Bukowski “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram
conta do navio”. Ótimo título. Como o Chet, como o Hendrix. E termino este
texto com o Velho Buk. Sempre ele, me salvando a cada dia. “Deve ser estranho viver comigo. É estranho pra mim. Boa Noite”. (Texto Luiz Tinoco Cabral)

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